Sinto que no bojo da tarde tensa e morna uma decisão foi tomada. Tudo conspira em silêncio: as árvores imóveis sob a pressão, o mar, as nuvens. Uma ave desce num mergulho oblíquo e antes de recuperar altura dá um grasnido agudo, como ferida. Um vento se ergue; é bêbado ou louco esse vento, que sopra sem direção, cambaleia no ar, cessa, bufa. Mas vem num crescendo; arrasta folhas rascantes, ergue poeira em remoinhos, açoita, com areia da praia, o tronco das árvores trêmulas. E de súbito redobra em fúria, bate portas, quebra vidros…

Que venha! Não abandonarei meu posto na varanda: já disse, sou um duro pastor, estou solidário com tudo — vem, vento, sobre o meu peito nu.

Avança, sejas quem for, alucinado aquilão ou austral demente; ronda o mar e a terra, como invisível cainçalha hidrófoba, em ladridos loucos, partindo galhos e mordendo espumas, fazendo subir nuvens de pó pelo dorso dos montes duros; vem, invade esta casa — e tu, nuvem negra, despeja os ralos de que estás prenha, fuzila no ar escuro, e ronca, e estronda!

Tudo, a um tempo, é pânico e libertação, as árvores zunem, os grandes pinheiros chicoteiam o ar, o mar avança. Estou na varanda; que batam janelas, voem coisas, tudo se parta, quero viver em pleno ar esta revolta. Que os raios queimem esta casa, que importa? Tenho uns livros, quadros, tudo é papel, pano, madeira, nada. Que fulmine meu peito, lasque e torre meu corpo, que há nele? Já vivi; quase 15 mil vezes se ergueu e se pôs o sol, e as estrelas giraram sobre esta cabeça, e a vida rodou com dores e sustos e remorsos, gozos — e me movi na água, na terra, no ar, que mais tenho a ganhar, que mais posso perder?

As primeiras bategadas me dão tapas, logo despenca a chuva grossa, com uma fúria animal, estrala nas lages e telhas, faz brilhar as árvores agitadas no ar negro, corre pelos meus cabelos, pelo corpo, gorgoreja nas calhas e empapa as paredes, inunda o chão…

Lá dentro o telefone toca. Vou atender, alguém me diz alguma coisa banal que me parece absurda: só devíamos gritar uns para os outros, como primitivos: Chuva, chuva!

E então me enxugo, fecho as vidraças, apanho coisas no chão, arrumo uns papéis, restauro a ordem formal, mas não acendo a luz, e deixo uma porta aberta. Quero ficar assim, quieto, olhando a chuva, e a noite que desceu com a chuva, como a vingança e o perdão.

rubem-braga
As crônicas aqui reproduzidas podem veicular representações negativas e estereótipos da época em que foram escritas. Acreditamos, no entanto, na importância de publicá-las: por retratarem o comportamento e os costumes de outro tempo, contribuem para o relevante debate em torno de inclusão social e diversidade.
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