“Tenho 19 anos. Completo no fim deste ano o curso ginasial”.

E então o rapaz conta sua história. Esteve em um Seminário dos 11 aos 15. Como não sentisse vocação, saiu. Aconteceram umas infelicidades, e sua família ficou mal de vida. Teve de trabalhar. Hoje está ganhando para cobrir mais ou menos as despesas da família; e além de trabalhar e estudar ainda faz um jornalzinho com os colegas.

Tem vontade de sair de sua pequena cidade mineira, vir para o Rio, “procurar crescer como jornalista”. Hesita; sabe que é uma imprudência, “Devo ficar em minha terra, vivendo na rotina? Mais para a frente, na carta, confessa: “não sei viver na rotina, quero alcançar a glória do ideal”. Depois apela para mim: “Peço-lhe que, ao menos, me dê uma ilusão de que posso ser útil à humanidade, pois a ilusão para o pobre constitui a metade da vida. Sou brasileiro e sinto que devo fazer algo em prol de minha pátria.... Não me importo com a quantidade de trabalho, o que me interessa é ingressar na carreira jornalística. Envio junto a esta carta alguns números do meu jornalzinho”.

Passo os olhos no jornal. É um desses pequenos jornais de colégio em que o nosso amigo escreve sobre as datas nacionais, os grandes vultos pátrios e nobres sentimentos; um outro explica esse negócio de crase, que vem do grego krasis e significa mistura; e são transcritos sonetos de Bilac e Bocage, B. Lopes e Fontoura Xavier, e fora disso há aniversários, esportes, pequenas notícias e as seções “Você Sabia…” e “Dizem que…” informando o povo de que a Sônia deixou de flertar com o Rui só porque ele olhava também para a Ruth sua irmã, ou que o Wilson, como bom apreciador da cor morena, deixou a Maria do Carmo porém logo se arranjou com a Luci.

Tudo está certo; mas porque esse rapaz se dirige logo a mim para pedir conselho? Que foi que escrevi, que frase solta no meio de alguma crônica pôde lhe dar a ilusão de que posso servir para dar conselhos a alguém? Ele diz que minhas crônicas servem de “lenitivo para as almas sofredoras”, o que me deixa francamente embaraçado e talvez um pouco aflito.

O que me assusta é que de vez em quando acontece uma coisa assim: alguém que me procura para ouvir uma palavra. Basta uma pessoa ter um nome saindo sempre no jornal para que isso dê a ilusão a outras de que ali está alguém que lhe pode ser útil, alguém que possui alguma faculdade superior, capaz de orientar sua vida, resolver sua angústia, ajudar os seus sonhos.

Se até em relação a mim acontece isso, que não acontecerá aos que procuram pastorear sentimentos e espíritos, os chefes de partido e de seita, os demagogos de todas as cores, os iluminados de todas as luzes? É espantoso pensar no enorme campo de sentimentos disponíveis que ainda existe no Brasil, apesar de todas as explorações; a imensa massa flutuante de moços e velhos, homens e mulheres capazes de a qualquer momento abraçar uma nova religião, seguir um novo chefe, adotar uma nova filosofia, entrar para um novo partido.

Dêem-me uma coluna de jornal, 15 minutos de rádio, algumas dezenas de contos e um pouco de cinismo ou de paranóia – e eu convencerei a milhares de pessoas de que o importante na vida é escovar os dentes de baixo para cima, votar em mim e usar uma gravata roxa, se for homem, ou uma fita roxa, se for mulher, e no lugar de dizer “bom dia” dizer “saravá”.

Não, rapaz do interior, não te direi que venhas nem que fiques. Deves ser menos crédulo e não pedir conselho a quem não conheces. É tudo o que honradamente posso te dizer. E “saravá!”.

rubem-braga
As crônicas aqui reproduzidas podem veicular representações negativas e estereótipos da época em que foram escritas. Acreditamos, no entanto, na importância de publicá-las: por retratarem o comportamento e os costumes de outro tempo, contribuem para o relevante debate em torno de inclusão social e diversidade.
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