A empregada parou um instante de passar a flanela no chão para me dizer, sorrindo:
— Hoje era meu dia de folga...
Não entendi: ela folga apenas as tardes de sábados e domingo, e não reclama, pois sabe que de vez em quando faço uma pequena viagem.
— Dia de folga por quê?
— 13 de maio…
No elevador o mulato cabineiro que me levava ao escritório do amigo também comentou:
— Veja o senhor, tanto feriado à toa e tiraram logo esse, o mais bonito, o dia da liberdade!
Não sou ibopista, não fiz inquérito nenhum, mas esses dois comentários me fizeram suspeitar de que a população de cor tem uma leve mágoa da abolição desse feriado tradicional. Seria de prever talvez o contrário: a Abolição lembra, antes de tudo, a escravatura, e a ninguém interessa se lembrar disso. Todos, e principalmente os negros, em geral pobres, continuamos mais ou menos escravos: é outro pensamento triste que o dia da Abolição pode suscitar. Mas um feriado é sempre um feriado; e talvez muitos negros se sentissem importantes em ter o seu feriado, uma espécie de lembrete aos brancos de que eles não são mais escravos, e sim cidadãos iguais aos outros — iguais mesmo, do ponto de vista dos direitos cívicos, ao general Ignácio José Veríssimo!
Eu por mim confesso que vi com tristeza a supressão desse feriado; lembro-me de como esse dia me impressionava na infância, e a história da Princesa Isabel me parecia um conto de fadas que tinha acontecido de verdade, e no Brasil; era lindo, a princesa libertando os escravos. Eu a imaginava muito jovem, muito loura e muito linda, e jamais me conformei com aquele seu retrato de matrona gorda. E como era bonito o nome da lei — a Lei Áurea! assinada com uma pena de ouro! — e que primor de dignidade simples o texto do decreto, uma só frase libertando uma raça!
A Independência não parecia tão bonita, porque o príncipe era português; e a república também não, porque tinha pena do imperador, tão velho e tão bom. 13 de Maio era a data mais linda, mais generosa; e tenho pena das crianças de hoje, que foram à escola nesse 13 de Maio de chuva e de vento sul, em que bato esta croniquinha saudosista.