28 jun 1969

Três mortes em junho

 
Fonte: Da quieta substância dos dias. São Paulo, IMS, 1991, pp. 207-210.

Na medida em que se sucedem os anos você se sente como uma árvore, as raízes cada vez mais numerosas, cada vez maiores, cada vez mais agarradas ao chão. Mas como você é menos que uma árvore, porque você é apenas uma consciência e uma inexplicada angústia, você se sente integrado nos próprios elementos da terra natal, cada átomo do seu ser preso a cada átomo de tudo quanto nela existe ou vive. Você a absorveu de tal modo que tudo quanto nela se encontra encontra-se também no seu ser. Você acaba não sabendo onde você e a terra natal se separam, tudo o que acontece nela acontece em você. Quando alguma coisa a atinge e fere, você sofre como se fosse atingido e ferido. Às vezes, quando é a morte que a despoja de suas figuras mais amadas, você também se estorce como se fosse mutilado vivo, como se arrancassem de você pedaços de corpo e alma.

Agora se pode imaginar como você se sente, não apenas mutilado, mas sentimentalmente demolido com as três mortes que em curtos dias abalaram sua terra natal, a morte de Mariquinha Rabelo Brochado, a morte de Alexandre Xandó e a morte de Eliziário Junqueira. Eram três personagens que se haviam fixado definitivamente, com todos os seus movimentos e todas as suas cores, com toda a nitidez de suas figuras quase heroicas, nos longos e numerosos murais da sua vida interior ou na paisagem humana da sua cidade. Você conheceu Mariquinha, filha de dona Amélia professora, quando os Rabelo vieram de Três Pontas. Dona Amélia era uma senhora sem sustos e sem chiliques, uma mulher decidida e extremamente generosa. Mariquinha era uma menina de olhos negros, enormes, deslumbrantemente luminosos; e um sorriso de dentes brancos e belos, que também cintilavam de tão brancos e tão belos. Ela era toda envolvida por essa luminosidade e por essa brancura, por essa crepitação, esse fulgor de sonho no olhar e essa imagem alvadia de todas as canduras e de todas as resignações no sorriso. Com o andar do tempo essas luzes se recolheram para o coração da esposa e da mãe, para o coração da exemplar e incomparável samaritana de todos os necessitados, de todos os aflitos e sofredores que iam buscar socorro em sua sempre modesta e sempre ilimitada misericórdia. Em Mariquinha a cidade não perdeu apenas uma grande senhora, perdeu um evangelho vivo, um código de polidez, um estatuto de amor ao próximo, uma instituição do mais puro devotamento humano.

Você se lembra também do Alexandre Xandó, filho de dona Maria Xandó e do seu Xandó joalheiro, que talvez você não tivesse tido tempo de conhecer, pois este era bem mais antigo. Alexandre, em menino, tinha pinta de moleque endiabrado, os Xandó sempre foram bons mas divertidos. Cresceu ajudando sua mãe no hotel, o famoso e movimentado Hotel do Sul. E você sabe que fez muitas outras coisas, teve muitos ofícios. Quando se casou com dona Otília, tinha um canil, criava e vendia cães de caça. Alma vibrante, rica de curiosidade e inquietação, dava tudo de si mesmo a cada empreendimento, de que esperava tanto quanto o entusiasmo neles investido. E, como os resultados não vinham na medida dos seus sonhos, passava logo a nova empreita. Assim a esperança do Alexandre não morria, apenas se transformava. Todavia, era também um inconstante na inconstância, e vários traços do seu caráter, como a sua displicência no vestir, a sua bonomia, o seu amor ao cigarro, à pesca, aos animais e seu respeito pelas coisas da inteligência, o acompanharam do começo ao fim da vida.

A Sociedade de Cultura e Arte conheceu os mais belos espetáculos e promoveu suas grandes festas educativas no período em que Alexandre Xandó nela trabalhava a todo vapor. O programa realizado para comemorar o centenário de Chopin foi um êxito absoluto, recebeu aplausos de toda a cidade, mas deveu-se tudo ao entusiasmo e à fervorosa assistência que Alexandre lhe soube dar. Com esse entusiasmo o encontramos sempre na última de suas versões, que foi a do Alexandre livreiro. E quanto serviço, você sabe, ele prestou à cidade, desde os doutores até as pessoas menos letradas, levando livros a suas casas para vender-lhes! Você mesmo uma vez escreveu a Manuel Bandeira dizendo que se não fosse Alexandre Xandó talvez corresse muito mais tempo sem você conhecer o Itinerário de Pasárgada.

O vendedor que vem oferecer novidades editoriais (você disse) levando de porta em porta essa nobre mercadoria que é o livro e que por ser nobre é às vezes tão mal recebido pelos Vips de armazém, esse vendedor de livros é um cidadão a que o governo desde logo deveria conceder patente, soldo, honras e privilégios de general em tempo de guerra. São homens que se colocam na vanguarda de uma batalha (você continuou) e de ordinário a comandam e suportam com bravura. Ninguém contesta que conseguir colocar livros é como conseguir colocar bombas no território inimigo, o território da ignorância. Livro é como explosivo a serviço da civilização (você concluía). Foi nesse campo de batalha, empunhando armas, empunhando livros que no momento vendia, foi como soldado da cultura, no cumprimento do seu dever, que a morte o fulminou. Quem jamais com a mesma simpatia, a mesma simplicidade, o mesmo esforço e a mesma coragem tomará o seu lugar?

Eliziário Junqueira talvez você o tivesse conhecido quando chegou formado em medicina. Ou mais tarde, quando trabalhou como assistente do doutor Mário Mourão no velho consultório da rua Junqueiras, depois destruído por um incêndio. Ou, mais possivelmente, você o terá visto como chefe dos serviços termais de Poços de Caldas. Eliziário Junqueira foi um outro homem muito diferente de todo mundo. Era um longilíneo, do tipo astênico, seco de corpo mas bem configurado. Era, em resumo, um gótico, parecendo todo construído em ogivas e filigranas de pedra, em nervuras e longas verticais de pedra. Porque era polido, sólido, honrado e puro, com essa pureza de granito lavrado com que se erguem as catedrais, embora não tivesse nada de monumental, no sentido de monumental como imponente e majestoso. Sua grandeza estava mesmo em se fazer minúsculo mas sem rebaixar-se, conservando a forma de cristalização espiritual que lhe era inata, indeformável e incorruptível. Aquele homem de traços finos e que se vestia com tanta correção manteve uma fidalga têmpera de alma, um caráter resistente às mais sedutoras formas de corrosão. Era leal, positivo e franco, sem dublagens, sem as ilusões com as quais você sabe que o homem às vezes se entrega para suportar a vida. Ele se manteve fiel a um centro de gravidade moral, fiel como um fio de prumo. Foi um médico a quem a medicina pouco ou nada acrescentou. Ao nascer, ele já tinha o diploma de homem de bem e esse diploma é que o tornava superior nos confrontos de cada dia.

Assim você vê que três criaturas raras acabamos de perder! Nem sei qual delas era maior, nem sei qual delas chorar primeiro. Só sei o que você também sabe. É que na desolação deste agoniado silêncio que se fez dentro de nós, por muitos e muitos dias, por muitas e muitas noites, os horizontes estarão plangendo sobre as montanhas como o grande sino da terra natal, plangendo a dor coletiva sobre esses grandes mortos do mês de junho. Estarão chorando por nós todos.

jurandir-ferreira