3 ago 1963

Fim de semana em Cabo Frio

Periódico
Manchete, nº 589
Publicada também em: livro O colunista do morro, de 1965.

Estava tudo perfeito, mais que perfeito. Cabo Frio é tão fácil. As paisagens se desdobram como cartas de baralho. Meu corpo funcionava com uma regularidade batata. Sístoles, diástoles, inspiração, expiração, equilíbrio e energias, a escrita do sono em dia. A saúde física e moral me visitava.

Era nova e limpa a cabana, o chuveiro funcionava, o cobertor aquecia, o restaurante, se salgava nas contas e repetia indefinidamente o elepê de Nat King Cole (que sujeito chato!), tinha peixadas e vinho. 

Em frente, tinha amendoeiras, uma piscina à beira-mar, um barco decorando a praia do clube, um campo de golfinho, ah, tinha até um campo de golfinho.

No outro clube, no canal, o Werneck era uma flor de anfitrião, o pessoal de serviço aprendeu logo os nossos nomes, poupando-nos o aborrecimento de mexer em dinheiro, o uísque, autêntico, as batatinhas fritas feitas na hora, ninguém se ria demais ou se mostrava.

No meio do canal, tinha uma rede armada para os peixes, garças em lento movimento; do outro lado, um casarão antigo legal e a capoeira com verdes e amarelos de um desbotado bacanérrimo.

As mulheres tomavam sol, reconciliadas com os maridos, em um silêncio intumescido de gratidão; ah, se os maridos as tinham levado para o fim de semana em Cabo Frio, eram eles uns sujeitos excelentes, perdoados de todos os egoísmos e ausências do passado.

Jogamos futebol, volibol, ganhamos, tudo na mais delicada cordialidade, o Alim improvisou um picadinho na casa dele, todos corados e cansados o suficiente para se esperar da vida uma novidade.

As crianças, ah, as crianças! Estavam esfuziantes, tão emolduradas no momento, que nem dava para pungir o espinho de se fazer tão raramente um programa daqueles. 

Céu azul, aragem meiga, dinheirinho no bolso, luz, tanta luz.

Em um paredão avançado para dentro d´água, ostras em penca ao alcance da mão. 

O gim é um veneno delicioso de manhã, sobretudo a bordo do Pitangola, sobretudo quando a gente suspende os remos e contempla a seguinte sequência: long-shot de uma menina-moça estirada sobre a relva, louríssima sem escândalo, branca sem acidez, com um maiô vermelho de duas peças; perto, um menino atira pedras em uma placa de madeira, que indica o caminho para um hotel; o peixinho vermelho diz ao menino para acabar com aquilo; o moleque responde com duas pedras na mão; a garota se levanta, agarra o menino e lhe dá uns tapas; o menino se safa, agarra calhaus maiores e volta a destruir a placa; a garota dá um pique de cem metros pela estrada; segura o menino, baixa-lhe o sarrafo, dá-lhe uma chave de braço e o conduz à polícia; a menina retorna e se deita de novo sobre a relva; o Pitangola se aproxima; close da cara da menina-moça, angelicalíssima.

Tudo perfeito, tudo mais que perfeito.

Uma sauna rápida, seguida de um mergulho no canal, liga o inferno ao paraíso, e só através do contraste apreendemos a dor e o gozo.

A dor e o gozo.

Era horrível o fim de semana em Cabo Frio. De uma imparcialidade desumana. Dentro do meu bem-estar físico e psíquico, estava arrasado. Que tinha eu com tudo aquilo? Que tem o ser humano com o bem-estar?

Ou me entendem agora ou nunca: quero dizer o seguinte: o sol, o azul, o à toa, essas coisas estraçalhavam meus fantasmas. Fiquei sem meus fantasmas. Sem minhas atribulações, sou o atribulado; sem minhas tristezas, sou o triste; sem minhas angústias, sou o angustiado; sem minhas infelicidades, sou o infeliz. Descobri isso, finalmente. A felicidade, madame, é horrível. Que horror, era horrível! Espapaçado ao sol, entre amigos, na juventude do fim de semana, com a aragem, as ostras, o peixinho de maiô vermelho, o golfinho, a plenitude das crianças, eu não sei, eu não chego até lá, me desencaminho, eu me doo até os ossos. Sem sofrer, eu sofro demais. Tudo, Senhor, menos ser feliz. Minha libertação não é essa, essa eu não aguento. Tudo, menos achar que a vida é boa. Ah, M. Joubert Guerra, le bonheur m´accable! Nervosismo? Claro que estou, claro que sou nervoso. Deus me abandonou à felicidade. Essa não!

Felizmente, domingo do crepúsculo, no restaurante apenumbrado, antes do regresso, as fúrias e as penas voltaram ao meu coração. Eu as deixei entrar com alívio, e elas se assentaram todas, todas, em torno de mim. E prosseguiram, graças a Deus, em assembleia permanente.

paulo-mendes-campos
x
- +