Periódico
Manchete, nº 591
Publicada também em: livro O colunista do morro, de 1965.

Foi há alguns anos. A tarde era preguiçosamente azul, no entanto, às duas em ponto, entregaram-me a carta que fez o dia enevoado, irremissível. Peguei um livro na estante e desci. Na esquina, reli os termos lacônicos da carta e tomei o lotação. Não tinha dúvida: a letra promissória vencera. Me vencera.

Durante a viagem até o gerente, fui lendo. Não gosto de ir a bancos sem levar livro de poesia. Dá mais coragem.

Os poemas eram de um poeta inglês moderno, W. H. Auden, de uma poesia menos tersa do que a de Eliot, porém mais viva. Ia lendo uma balada: 

 

Let me tell you a little story

About Miss Edith Gee;

She lived in Clevendon Terrace

At Number 83. 

Pois é, ela vivia em Clevendon Terrace, meio vesga do olho esquerdo, lábios pequenos e finos, ombros estreitos e caídos, busto não tinha nenhum. Usava um chapéu de veludo com enfeites, um costume de sarja cinza-escuro, dormia no sofá-cama de um pequeno quarto. Para os dias de chuva, tinha uma capa roxa de borracha e um guarda-chuva verde; fazia compras em uma bicicleta de freio de pedal guarnecida de uma cesta. Para a igreja de Santo Aluísio, que não era longe, Miss Gee fazia tricô em quantidade, indagando das estrelas se alguém por este mundo de Deus poderia dar-se conta de que ela existia em Clevendon Terrace ganhando cem libras por ano. Uma noite, sonhou que era a rainha da França e que o vigário de Santo Aluísio convidava Sua Majestade para dançar; mas uma tempestade caiu sobre o palácio, e ela se viu na bicicleta em um campo de trigo, enquanto um touro de chifres em riste, com a mesma cara do vigário, investia sobre ela; chegava a sentir o bafo do touro, e a bicicleta, por causa daquele freio de pedal, ia cada vez mais devagar.

Quando vinha o verão, as árvores ficavam bonitas como um quadro, mas chegava o inverno, e elas pareciam ruínas. Miss Gee ia de bicicleta ao culto vesperal, com sua roupa fechada até o pescoço, virando o rosto aos casais de namorados, que nunca lhe pediam para ficar. Sentava-se a um canto da nave, ouvindo o órgão; o coro cantava tão docemente no fim do dia. Ajoelhava-se depois, rogando a Deus que não a deixasse cair em tentação, mas dela fizesse, por favor, uma boa moça.

Um dia, com suas roupas abotoadas até o pescoço, Miss Gee tocou a campainha do ambulatório do médico, contando-lhe que não se achava bem e alguma coisa lhe doía lá dentro. Doutor Thomas a examinou duas vezes, lavou as mãos em uma bacia, perguntando-lhe: “Por que a senhorita não veio aqui antes?”.

Pois nesse mesmo dia, ao sentar-se com a família para jantar, fazendo com os dedos bolinhas de pão, doutor Thomas dizia: “O câncer é uma coisa engraçada: ninguém sabe a causa dele, apesar de ter gente que acha que sabe; é como um assassino que se esconde de tocaia para matar-nos. Mulheres sem filho costumam tê-lo, e os homens, quando se aposentam, como se fosse necessário uma saída para esse fogo criador reprimido.” A mulher do médico, tocando a campainha para chamar a empregada, falou: “Deixe de morbidez, meu bem”. Mas ele disse ainda: “Vi Miss Gee hoje à tarde e acho que ela infelizmente está mais pra lá do que pra cá.”

Miss Gee foi conduzida ao hospital, onde ficou na enfermaria de mulheres com sua camisola fechada até o pescoço. Os estudantes começaram a rir quando ela foi colocada sobre a mesa. Mr. Rose, o cirurgião, cortou Miss Gee pelo meio, virando-se para os alunos: “Prestem atenção, por favor, senhores: raras vezes podemos ver um sarcoma em estado tão adiantado quanto este.” Miss Gee foi então levada em um carrinho a um outro departamento, onde estudavam anatomia. Eles a penduraram no teto; aí, estudantes de Oxford cuidadosamente dissecaram seu joelho.

Passei a outro poema. Esse dizia que o desígnio é escuro e mais fundo do que os vales do mar. Quando recai sobre um homem a sentença de abandonar a sua casa, nada poderá detê-lo: nem macia mão de nuvem, nem mulher, nada. Passando por porteiras e florestas, estranho entre os estranhos, esse homem irá, pelos riachos dos rochedos, sozinho como um pássaro das pedras, um pássaro inquieto. De noite, cansado, sua cabeça se inclina, e ele sonha com a casa, uma ceia de boas-vindas, o beijo da mulher debaixo do lençol; mas, ao acordar, vê um bando de pássaros sem nome, e ouve pelas portas a voz de outros homens praticando outro amor.

O poema terminava quando ia atravessando a avenida Rio Branco: Salvai esse homem da captura hostil, do súbito salto do tigre na esquina; protegei sua casa, sua casa onde os dias são contados, protegei-a do raio e da ruína gradual, alastrando-se feito nódoa; ah, convertendo o número de vago em preciso, trazei a alegria, o dia de seu retomo, feliz com a vinda da manhã, com a aurora inclinada.

Doom is dark and deeper than any sea-dingle, isto é, repetindo, o desígnio é escuro e mais fundo do que os vales do mar. Ouvi um grito e um barulho violento de freios. Senti uma pancada pelo traseiro, subi no ar, caí esborrachado, o livro ainda na minha mão. Dessa vez, pensei, estou frito. Magicamente, quando me ergui, já me encontrava rodeado por uma pequena multidão. Olhei-me, não havia sangue; apalpei-me, não parecia ter quebrado nenhum osso. O motorista estava pálido, apesar de não ter culpa. Os circunstantes, ah, os circunstantes ficaram decepcionadíssimos. Meio abobalhado, pedi-lhes desculpas por não ter-me acontecido nada de grave. E entrei no banco, impávido.

paulo-mendes-campos
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