Um caderno velho, com notas de uma viagem pelo Nordeste. Transcreverei aqui trechos de cartas de nordestinos que emigram para a Amazônia. E sua leitura agora, depois da tristeza imensa em que findou a Batalha da Borracha, é triste...

Os homens vão para o Amazonas e pelo caminho escrevem e recebem cartas. Maria Cristina, de Mossoró, escreve a Raimundo, que já está em São Luís do Maranhão, esperando o vapor que o levará a Belém: “... não, não creio que tenhas tamanha desconfiança em mim... serei firme e constante...”

Um pai escreve ao filho: “... Aqui vamos vivendo, espero que logo que você receber dinheiro me mande alguma coisa, nós vivemos muito aperreados”. Outro pai dá um conselho ao filho emigrante: “... seja obediente...” Outro dá notícia de Apodi: “Aqui ultimamente tem caído um bom inverno, e a lagoa já encheu”. E a mãe acrescenta: “Impossível descrever as saudade que tenho de ti... mas tenho fé em São José que breve voltarás”.

Um homem que já chegou a Belém escreve ao amigo em Massapé: “José Maria, não esqueço um só instante daí, de tua casa e palestra, nestas horas os meus olhos vertem lágrimas de saudades de nosso torrão que tanto amo de verdade”. Outro escreve para a mãe no Rio: “Segundo o que dizem vamos ganhar muito dinheiro”.

Teógenes escreve ao irmão que ficou em Lavras, Ceará: “Oxalá que esteja bem chuvido por aí. Aqui a notícia que corre é que no Amazonas há superabundância de dinheiro, diga ao Izael que venha para o Amazonas.”

Do marido à mulher: “Isaura, tu não imaginas, toda noite sonho contigo. Não fico em Belém porque não dá futuro, portanto vou assinar o contrato, voltarei com brevidade do Acre.”

Um rapaz ainda em Fortaleza escreve à mãe no Rio: “Mamãe si Deus quizer voltarei com muito dinheiro. Voltarei para provar que sou homem e não sou um muleque.” Outro: “Um pouco adoentado, não há de ser nada, dentro de alguns dias seguirei para o Amazonas para fazer fortuna”.

Um que escreve de Teresina ao pai em Santa Quitéria: “Não sei quanto vou ganhando, e não sei quanto vou ganhar, se eu pegar um dinheiro não me esqueço do senhor”.

A mãe do sertão do Ceará, ao filho, em Belém: “Até esta data nada recebi, disseram que eu não tinha direito nem a sua mulher por que você não era casado no civil. Tenha pena de sua mãe que ela está morrendo de fome, eu espero que você mande ordem.”

A mulher, em Mossoró, escreve ao marido em Manaus: “Eu só recebi 4 mil réis, porque só tinha na lista duas pessoas, mas eu conversei com o doutor. Hoje mesmo já recebi 6 mil réis... Bote a bênção nos seus meninos e aceite um coração cheio de mil saudades de tua querida esposa.”

Irmã em Macau, ao irmão em São Luis: “Não estava esperando esta notícia de ires para o Amazonas... Lembra-te que deixaste um pai velho e uma irmã e que estes ainda desejam ver-te... Olha Antônio, v. podendo nos mandar qualquer coisa não deixe de mandar que aqui as coisas estão muito ruim... Quando estiver aperreado faça uma promessa a N. S. do Perpétuo Socorro. Papai envia-te uma feliz bênção... P. S. Compadre Fausto foi também para o Amazonas, será que te encontrarás com ele aí?” Nota à margem, em letra trêmula, da mãe do rapaz: “Pouca esperança já me resta de ver-te pois estou muito velha...”.

Mãe em Icó, ao filho em Fortaleza: “Desde a tua saída fiquei em tempo de ficar doida, nem posso dormir e nem comer. Dioclécio me escreveu que você não seguisse nessa Cia. Americana que vão para as matas que estão os caboclos brabos que é mesmo que ser uma guerra. Eu lhe mando dizer que os legumes não sustentarão quasi nada, mas o feijão vai até mais adiante, milho pouco; mas vai convivendo”.

Pai, de Independência (Rio Grande do Norte), escreve ao filho em São Luís: “Peço-te logo que possível escreveres dizendo-me alguma coisa a respeito deste destino se serve; pois, como aqui cada vez peior, e precisões cada dia aumentam, conforme seja as condições que mandares me dizer irei também”.

Filha, de Mossoró, ao pai em São Luís: “Papai eu agora não estou no meu emprego porque faltou massa para fazer o pão e seu Zézinho disse que eu e Terezinha passasse uns dias suspensa do trabalho”.

Filho, de Belém, à mãe, em Sobral: “Mãe, primeiro que tudo me bote a bênção. Mãe o que eu prometi de mandar dinheiro para a senhora até o fazer esta carta ainda não peguei em dinheiro eu tenho promessa de receber dinheiro aqui em Belém do Pará... Eu à vista do que estava em Iguatu aqui é um grande céu, milhor do que lá porque estou gozando milhor a vida... Não avise ao Anocrato que venha para o Amazonas, que se ganha dinheiro segundo dizem, e a qualquer alguns de meus amigos... Não faça geito do João vir para o Amazonas porque em todo lugar que ele chegar não falta nada sim porque um homem como esse gasta tudo o que pega com as raparigas”. 

 

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