Fonte: A falta que ela me faz. Rio de Janeiro, Record, 1987, pp. 20-22

Éramos três condenados à crônica diária: Rubem no Diário de Notícias, Paulo no Diário Carioca e eu no O Jornal. Não raro um caso ou uma ideia, surgidos na mesa do bar, servia de tema para mais de um de nós. Às vezes para os três. Quando caiu um edifício no Bairro Peixoto, por exemplo, três crônicas foram por coincidência publicadas no dia seguinte, intituladas respectivamente: “Mas não cai?”, “Vai cair” e “Caiu”. 

Até que um dia, numa hora de aperto, Rubem perdeu a cerimônia: 

― Será que você teria aí uma crônica pequenininha para me emprestar?

Procurei nos meus guardados e encontrei uma que talvez servisse: sobre um menino que me pediu um cruzeiro para tomar uma sopa, foi seguido por mim até uma miserável casa de pasto na Lapa: a sopa existia mesmo, e por aquele preço. Chamava-se “O preço da sopa”. Rubem deu uma melhorada na história, trocou “casa de pasto” por “restaurante”, elevou o preço para cinco cruzeiros, pôs o título mais simples de “A sopa”.

Tempos mais tarde chegou a minha vez ― nada como se valer de um amigo nas horas difíceis:

― Uma crônica usada, de que você não precisa mais, qualquer uma serve. 

― Vou ver o que eu posso fazer ― prometeu ele. 

Acabou me dando de volta a da sopa. 

― Logo esta? ― protestei. 

― As outras estão muito gastas. 

Sou pobre mas não sou soberbo. Ajeitei a crônica como pude, toquei-lhe uns remendos, atualizei o preço para dez cruzeiros e liquidei de uma vez com ela, sob o título: “Esta sopa vai acabar”. 

Estranho ofício é este de escrever. De toda crônica que publiquei na vida, houve sempre um leitor para achar que era a melhor e outro a pior que já escrevi. Crônica? Nunca a célebre definição de Mário de Andrade (sobre o conto) veio tão a propósito: crônica é tudo aquilo que chamamos de crônica. Rubem Braga, de quem se diz que jamais praticou outro gênero, o maior cronista brasileiro, é autor de alguns dos melhores contos de nossa literatura, sempre tidos e lidos como crônicas. O mesmo se poderia afirmar de Paulo Mendes Campos. Quanto a mim, como dizia o poeta, outros que não eu a pedra cortem: limito-me a escrever aquilo que me agradaria ler ― e ler passando preguiçosamente os olhos pela matéria escrita, à procura de uma brecha de interesse por onde entrar. Macaco velho, venho de longa experiência, para meter a mão em cumbuca. Nunca me esqueço o dia em que o Carlos Castello Branco me disse, a propósito das crônicas que eu escrevia no falecido Diário Carioca, já se vão muitos anos: 

― Eu, se fosse você, parava um pouco. Esta sua última crônica estava de amargar.

Parei dois anos por causa disto. Quando recomecei, como todo cronista que se preza, vez por outra recauchutava um escrito antigo, à falta de coisa melhor, confiante no ineditismo que o tempo lhe conferia. Até que chegou o dia em que no meu estoque não restava senão uma, jamais republicada ― aquela que o Castellinho havia estigmatizado com seu implacável juízo crítico. Vai essa mesmo ― decidi, tapando o nariz e escondendo a cara de vergonha. Pois não vem o mesmo Castellinho me dizer, efusivo, a propósito da mesmíssima crônica: 

― É das melhores coisas que você já escreveu. 

Havia-se esquecido, o mandrião. E por causa dele eu passara dois anos no estaleiro. Quando lhe acusei a distração, ele não se perturbou: 

― Agora achei boa. Ou a crônica melhorou, ou eu é que piorei.

fernando-sabino