Fonte: O mais estranho dos países. São Paulo, Companhia das Letras, 2013, pp. 251-252.

Fernando Sabino morava na avenida Copacabana, a dez metros do cinema Metro, e eu morava na avenida Copacabana, a dez metros do Fernando Sabino. Tinha alugado um quarto no décimo andar, oito andares acima do apartamento de Carlos Lacerda. Foi nos fins de 1945.

No apartamento do Fernando, numa noite de descaramento etílico, propus a Vinicius que escrevêssemos, no momento, um soneto a quatro mãos. Ele acedeu. Não é essas coisas, mas vale como lembrança. Guardo o manuscrito (a duas mãos) e o soneto foi ainda publicado no suplemento dominical do Correio da Manhã. Ei-lo:

 

Tudo que existe em mim de amor foi dado. 

Tudo que fala em mim de amor foi dito. 

Do nada em mim o amor fez o infinito 

Que por muito tornou-me escravizado.

 

Tão pródigo de amor fiquei coitado,

Tão fácil para amar fiquei proscrito. 

Cada coisa que dei ergueu-se em grito 

Contra o meu próprio dar demasiado.

 

Tendo dado de amor mais que coubesse 

Nesse meu pobre coração humano 

Desse eterno amor meu antes não desse.

 

Pois, se por tanto faz me fiz engano 

Melhor fora que desse e recebesse 

Para viver da vida o amor sem dano.

Vinicius de Moraes, 1988

 

Temas: Fernando Sabino; Vinicius de Moraes; poesia.

 

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