Periódico
Vanguarda
Publicada, posteriormente, nos livros O cego de Ipanema, de 1960, e Alhos & bugalhos, de 2000.

Tenho horror de lagartixa. Está acima de minhas forças. Sinto nojo e medo, acabei odiando esses bichinhos. A raiva me vinha da incapacidade de matar uma lagartixa; se as encontrava, nervoso, vergonhosamente pálido, fugia. Outro dia vi um menino de três anos a brincar com uma, das menores por sinal, e para mim era como se a criança estivesse a mexer com um crocodilo.

Minha casa passou a ser também a residência de três enormes lagartixinhas. Hóspedes incômodos, viviam me assustando. Ontem, é verdade, liquidei duas. O crime compensa.

A primeira foi mais difícil. Para começar, fitei-a longo tempo, como a convencer-me de minha superioridade física é moral. Armado de cabo de vassoura, aproximei-me cauteloso, enquanto ela me olhava a duvidar de minhas reais intenções. Não é possível ― pensou ― que esse sujeito vai me dar uma paulada. Como continuasse avançando, ela recuou um pouco, mas, pejando-se talvez na covardia, refletiu estupidamente: Se não fiz mal a esse homem, não preciso nem devo temer coisa alguma. O nobre raciocínio custou-lhe o rabo, o rabo porque, na insegurança da emoção, o golpe desviou-se uns centímetros do alvo. Enquanto o rabo estertorava no chão, ela esgueirou-se pela parede, ocultando-se atrás de um móvel. Os saltos do rabo isolado do corpo me acabrunhavam. Senti por um momento meu valor desfalecer. Agora, porém, o problema era mais sério: trata-se, piedosamente, de livrar a lagartixa de continuar existindo aleijada. De que vale uma lagartixa sem rabo? De que vale um rabo sem lagartixa? Afastei o móvel, tive a impressão agradável e desagradável de que ela tremia de pavor.

Desferi o segundo golpe, mas com tanta infelicidade que a pobre ficou descadeirada e tonta, sem noção do perigo, pôs-se a arrastar penosamente pelo rodapé. Com a terceira cacetada, estrebuchou de barriga para cima. Está morta, pensei, descansando da peleja. Entretanto, ao remover o cadáver, fui surpreendido por um pulo que a colocou de novo, toda estragada, na posição certa. Veio-me um frio na espinha. Mais uma vez a covardia assaltou-me; a essa altura eu não me permitia fraquezas: o tiro de misericórdia teria matado um gambá.

O assassinato da segunda foi mais simples. Menos emocionante, mais experiente desferi apenas dois golpes certos e fatais. Joguei os dois corpos no lixo e estava a escrever essa crônica, quando alguém me informou de duas coisas: primeiro, que lagartixa dá sorte: segundo, que perdido o rabo de uma lagartixa, cresce-lhe outro. É tarde. Quanto ao rabo, retifico: uma lagartixa sem rabo vale uma lagartixa inteira. Quanto à sorte, devo dizer que o extermínio das duas parece ter me libertado do medo. A terceira lagartixa pode estar agradecida ao sacrifício de suas irmãs. Ela me dará sorte, eu lhe pouparei a vida.

paulo-mendes-campos
x
- +