Do “exército do Pará”, diz Manuel Bandeira na sua famosa crônica sobre a nova gnomonia, são esses sujeitos que vêm do Norte, doidos para vencer de qualquer forma no Rio. A terminologia da atilada classificação de Jaime Ovalle pegou, e não adianta mais querer modificá-la, mas o fato é que a boa gente do Pará não tem fornecido os soldados mais típicos do “exército” que leva o nome do estado nortista. O pintor Raimundo Nogueira, por exemplo, é um tipo acabado de “Dantas”, nome dado aos “bons (toda a gente quer ser Dantas), os homens de ânimo puro, nobres e desprendidos, indiferentes ao sucesso na vida, cordatos e modestos, ainda quando tenham consciência do próprio valor”.

Tenho alguns amigos que vieram de Belém e outras cidades paraenses. O que sempre me espanta neles é a constância da nostalgia gastronômica, a presença irremovível da lembrança dos pratos típicos da terra.

Apesar da imensa distância que separa o Rio de Belém, apesar do preço dos fretes, não se trata duma nostalgia que se capitula diante da contingência geográfica. Não, o paraense exilado luta bravamente para obter as comidas de lá; trata-se duma saudade dinâmica. Estão sempre eles se movimentando, pagando caro, fazendo sacrifícios, a fim de trazer até aqui o Pará, isto é, a alma do Pará, o sabor dos pratos, dos doces, dos refrescos e dos sorvetes que conheceram na infância e juventude. O Pará é para eles puramente culinário. Esquecem depressa a selva colorida quando pisam aqui no asfalto, esquecem o rio (e os rios em geral, mesmo de menor porte, impregnam o ribeirinho duma adoração meio mística), esquecem os hábitos, a fala, adaptam-se com rara versatilidade. Mas não esquecem a cozinha paraense, que colocam muito acima de todas as outras do mundo. São danados de gulosos.

Gosto de gente gulosa. Não pelo fato em si mesmo, mas porque acabei descobrindo que as pessoas de convívio mais fácil, as mais leais, as mais simpáticas e bem-humoradas, são aquelas que estão sempre a fazer programações para comer bem. Aprendi, sem querer, a desconfiar dos homens que comem mal, os dispépticos orgânicos ou psicológicos, essas criaturas que não se comovem a mínima com a perspectiva duma feijoada feita com amor, dum vatapá caprichado ou uma fritada do divino sururu alagoano. Ainda outro dia, em Recife, a grande Otília pôs na mesa caranguejo, siri mole, camarão, lagosta.... Mas vamos ao fio da conversa: dou-me extremamente bem com os paraenses que moram no Rio, e compreendo com alegria que estejam constantemente a falar desses pratos de nomes misteriosos, desses temperos exóticos.

A gente está conversando com um paraense na casa dele, num dia de domingo por exemplo, a campainha toca, entra outro paraense. O recém-chegado cumprimenta os presentes, diz o mínimo de palavras convencionais, e vai logo ao que interessa, murmurando para o conterrâneo, com um brilho nos olhos:

― Recebi ontem, velho, um pouco de goma.

O anfitrião arregala também os olhos e sorriso:

― Ah, se não te fizer muita falta, me arranja um pouquinho, pelo amor de Deus. Te dou um vidro de pimenta de cheiro.

A conversa na sala prossegue, daí a pouco chega outro paraense, diz qualquer coisa, vai acomodar-se num canto, entre os conterrâneos. É a gente prestar atenção e ouve coisas sempre assim:

― Manduca recebeu casquinhos de muçuã!

― Oba!

― Domingo, se Deus quiser, vou fazer pato com tucupi!

― Oba!

― Menino, tenho duas tracajás no tanque lá de casa!

― Oba! 

― Descobri cupuaçu na Gamboa! 

― Oba!

― Comi umas mangabas na casa do Dico!

― Oba!

― Sarapatel de tartaruga foi na casa do brigadeiro!

― Oba! 

― Recebeste camarão salgado?

― Um piloto meu amigo vai conseguir pirarucu e murici!

― Oba! Oba!

― Vê se consegue bacuri e taperebá...

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