Periódico
Manchete
Publicada, posteriormente, nos livros Os bares morrem numa quarta-feira, de 1980, e O mais estranho dos países, de 2013.

Carlos Drummond de Andrade é econômico de gestos: a amizade de Mário de Andrade gesticulava. Contou-me este último. Conheceram-se em 1924 no Grande Hotel de Belo Horizonte. Desenrola-se uma afetuosa correspondência entre os dois poetas. Mário vai ao Rio e bate imediatamente para o Ministério da Educação; desgalha os braços ao encontrar o amigo. CDA estende a mão: “Como vai”?

O poeta sempre morou em Copacabana: Princesa Isabel, Joaquim Nabuco, Conselheiro Lafaiete. Uma madrugada, em 1944, percorremos todo o posto 6 e parte do 5 procurando matar ratazanas a pedradas. Não se registraram vítimas e os ratos continuaram a roer o edifício Esplendor.

Quando me mudei para o Rio, não tinha emprego nem ferramenta. CDA, com sua solicitude silenciosa, arranjou-me dois empregos e emprestou-me uma máquina de escrever. Fui morar num quarto de um apartamento da avenida Copacabana. A empregada era uma adolescente mulata, uma capetinha chamada Jandira. Um dia, D. Zilda, a senhoria, procurou-me, escandalizada: Jandira estava copiando num caderno barato os poemas de Drummond, veja só o senhor se tem cabimento. Um dia a capetinha foi despedida e eu verifiquei, com alegria, que surripiara o meu exemplar de A rosa do povo. Ganhei um novo exemplar com uma dedicatória: “por amor a Jandira”.

Minha geração ― Otto Lara Resende, Fernando Sabino, Hélio Pellegrino, J. Etienne Filho, Wilson Figueiredo, Carlos Castelo Branco, Murilo Rubião — falava fluentemente um idioma oaristo, colhido nos versos de Drummond. Era a maneira mais econômica, secreta e eloquente de nos entendermos.

Conhecemos o poeta numa tarde memorável, na avenida Afonso Pena em BH, CDA não se lembra mais dos alinhadíssimos sapatos de camurça que usava, mas nós, os mineirinhos da época, salvamos do olvido a elegância sóbria do escritor. Este, por sua vez, espantou-se da intimidade com que tratamos duas ou três moças encontradas no caminho. Era um tremendo barato, um progresso de Minas.

Costumava procurá-lo no oitavo andar do Ministério da Educação, onde funcionava a Diretoria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. CDA trabalhava numa saleta exígua ao lado de um homem caladão, que me parecia um bom e fiel servente. Uma tarde Di Cavalcanti apresenta-me na rua ao homem caladão. Terei corado de vergonha? Era Lúcio Costa.

Quando CDA se aposentou do serviço público em 1962, escrevi para esta mesma revista uma página mostrando o funcionário exemplar que ele foi, não apenas pontual e eficiente, mas criador, tendo participado de modo decisivo de várias medidas essenciais aos negócios da cultura e da educação. Para minha surpresa, mandou-me uma carta comovida: jamais imaginara que seus serviços públicos fossem lembrados. Confesso agora que a lembrança não foi minha, mas de Justino Martins.

Participamos juntos de um júri de poesia. Contou para Manuel Bandeira, para Fausto Cunha e para mim que estava contente: tendo mudado de apartamento, pela primeira vez possuía um escritório fechado; os outros tinham sido improvisados em cantos de sala. Bandeira compreendeu logo: “Às vezes até a solicitude amorosa cansa”.

Havia sido publicado no suplemento do Correio da Manhã o poema “A morte no avião”. Eu ia para Belo Horizonte. Quando o DC-3 decolou, Otto Lara Resende passou-me o poema, querendo testar minha coragem. Fracassou: eu havia lido o jornal, antes de sair de casa. Ao nosso lado estavam Juscelino Kubitschek e José Maria Alkmin, então deputados. O poema foi passado ao primeiro, que o leu com entusiasmo. Depois JK piscou o olho e estendeu o recorte para Alkmin. Este informou-se do assunto nos primeiros versos, recusando-se a prosseguir com uma exclamação indignada: “Que brincadeira de mau gosto, gente”!

Era um bando de escritores autografando um livro coletivo numa livraria de Copacabana: CDA, Bandeira, Sabino, Braga e eu; Cecília e Diná não puderam comparecer. De repente há um movimento confuso. Uma senhora queria saber porque Drummond escrevera no seu exemplar: “A Dona Fulana, cordialmente, Manuel Bandeira”. O poeta também não sabia. Pior: tinha feito a mesma coisa em outros exemplares.

Caíra o Estado Novo. CDA foi nomeado, entre outros, para transformar o DIP em Departamento Nacional de Informações. Entro no seu gabinete pela manhã e encontro o poeta desalinhado, procurando os óculos: embolara-se com um funcionário malcriado que o ofendera. E estava bem feliz com o resultado do round.

paulo-mendes-campos
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