Fonte: João do Rio: crônica. Organização de Gabriela Beting, São Paulo, Carambaia, 2015, pp. 60-63. Publicada originalmente na coluna "A Cidade", do jornal Gazeta de Noticias, em 5 de junho de 1903.

Os gansos e os marrecos do Passeio Público andam espantados... Há conciliábulos animados à beira d’água, expressivos arrepios de asas, significativas bicadas, confidenciais grasnidos... A tribo dos palmípedes vive assombrada, depois que há iluminação farta e música alegre no terraço, fonte luminosa no jardim, grande massa de povo pelas alamedas perfumadas.

Até agora, o povo não passava do botequim, onde ia ouvir alguns garganteios brejeiros e beber alguns chopps. O resto do jardim, à noite, ficava entregue ao sono dos desocupados, à meditação dos tristes, às confidências dos namorados — e à vida calma e regalada dos gansos e dos marrecos nos lagos tranquilos.

Antigamente, sim. Houve tempo em que as famílias cariocas prezavam aquele sereno refúgio, à sombra das grandes árvores folhudas. Eu ainda sou da época em que, nas longas mesas de pedra da rua que ladeia o terraço, se faziam convescotes alegres. O chefe da família ia à vontade, no seu rodaque branco; a mulher e as filhas trajavam cassas e chitas baratas; a pirralhada corria e gritava em liberdade; e as negrinhas e os molecotes, crias da casa, carregavam os samburás cheios de empadas e mães-bentas. Deus me livre de ali ver, outra vez, os convescotes de antanho! essa história de pic-nics em jardins públicos já não é compatível com a nossa civilização. Mas não findavam apenas as merendas, nas mesas de pedras: findou também a concorrência das famílias...

Agora, com os melhoramentos que lhe deu a Prefeitura, o Passeio Público torna a ser um ponto de reunião amável. Anteontem, enquanto a magnífica banda do Instituto Profissional executava o programa do seu 5° concerto, já o nosso mais antigo e lindo jardim tinha um aspecto de jardim europeu, frequentado por gente bem-educada.

O Parque da República também precisa de um pouco de carinho. O que lhe falta, principalmente, é luz. A luz é a grande inimiga, não só da tristeza, como dos vícios que só amam a escuridão e o silêncio. Naquelas escuríssimas alamedas do velho Campo de Sant’Anna, as árvores, as boas e castas árvores, já devem estar escandalizadas com o que distintamente ouvem e com o que vagamente avistam à noite. Elas, as castas árvores, e não as menos castas estrelas (foi Shakespeare quem criou a lenda da castidade das estrelas), devem assistir a cousas escabrosas naquela escuridão... Luz, muita luz! luz elétrica, ou de gás, ou de álcool, pouco importa. Se é verdade que Goethe ao morrer pedia luz, não é muito que a peça quem está vivo, e quem foi educado segundo o preceito positivista de viver às claras.

No Passeio Público, os palmípedes já se vão habituando ao movimento, à música e à luz. Mas, no Parque da República, as alamedas ainda são o paraíso dos marrecos... e de outros animais de mais tino e de menos inocência.

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