O homem que não tem o que fazer

 

Fonte: Crônicas efêmeras: João do Rio na Revista da Semana.  Pesquisa e apresentação de Niobe Abreu Peixoto, São Paulo, Ateliê Editorial, 2001, pp. 28-29. Publicada originalmente na Revista da Semana, em 8 de janeiro de 1916.

 Ouça a crônica de João do Rio na voz de Lyza Brasil, professora de português e literaturas do Colégio Pedro II.

Encontrei ontem a consultar o relógio, muito nervoso, o Clodomiro Gomes. Era em plena avenida. Como bom brasileiro tive uma exclamação de infinita surpresa, apesar de vê-lo diariamente. E como bom brasileiro — (ou mau porque compreendo os próprios erros) — caminhei para Clodomiro, de braços abertos, disposto ao abraço fatal e a uma palestra sem motivo algum. 

— Que fazes? 

— Espero um táxi. Estou cheio de pressa! 

— Tu, meu rapaz, riquíssimo, a quem o pai deixou dois mil contos... 

— Que tens com isso? 

— A quem a madrinha deixou três mil... 

— Estás a declamar a minha fortuna ... 

— Não, estou a dizer que um homem com dez mil contos, pelo menos, não tem o direito de ter pressa, porque não tem o que fazer! 

Clodomiro Gomes olhou para mim com fúria. 

— Não me digas isso. Todo o meu mal é não ser como vocês, é não ter que trabalhar a sério para ganhar o meu sustento. Por isso ando cheio de preocupações, sem tempo, sem fé, sem alegria. Sabes lá o que é um homem não ter o que fazer? A minha vida é uma tortura! Positivamente. Sou rico? Desde manhã trabalho para matar o tempo, em coisas que para os outros não passam de distrações. As distrações são penas! Arrastado de festa em festa, figura obrigatória dos salões e dos teatros e dos chás — quero não ir e tenho pena de não ir, porque não saberia o que fazer, se não continuasse a ir. Vivo ressequido, curvado ao peso das diversões. Horror! 

— Mas o amor? 

— O amor para quem não tem o que fazer é o trabalho de gastar dinheiro com a falsidade. 

— Mas os estudos? 

— Para o homem que não tem o que fazer é — amadorismo. 

— Ora! Sempre tens o gozo, o prazer... 

— Trabalhos forçados para quem vive neles... 

— Não estejas a brincar! 

— Antes brincasse... 

— Mas se o não ter o que fazer obriga-te a tanto trabalho, por que não trabalhas efetivamente? És rico. Monta uma empresa, protege a indústria, tem fábricas, compra um engenho de açúcar como o ministro Bezerra ou tem uma empresa de luz elétrica como o Wenceslau Braz. 

— Inútil. O trabalho assim só nos serve a nós para perder dinheiro. Já tive uma fábrica. Acordava às 6 da manhã, vestia uma blusa. Todos riam. Uns exploravam-me, a companhia devorava-me. Outros, os operários e os humildes, consideravam-me de miolo mole. Ora o homem! Deu-lhe para divertir-se conosco... 

Recuei solene. 

— Mas é um drama! 

— Uma tragédia. E adeus! Tenho meu tempo todo tomado, até às 7 em que subirei para Petrópolis. 

— E em Petrópolis? 

— Até pela madrugada, festas, poker, cavalinhos, os trabalhos de quem não tem o que fazer! 

— Então? 

— Então? — Fez desolado o infeliz Clodomiro Gomes já dentro do automóvel —, guarda esta observação: não há nada mais difícil do que não ter o que fazer. 

Sorri, disse-lhe adeus e não acreditei. Porque ter o que fazer também não adianta nada... 

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