Prezado Sr. G. F. S.: Permita-me transcrever umas poucas linhas de sua carta a fim de que os leitores entendam o seu problema: “Atarefado entre a minha (felizmente) numerosa clínica e os inumeráveis compromissos sociais que me tentam (pois amo a vida), disponho de um tempo exíguo para a leitura de obras não-científicas, esperando que o senhor me fizesse a gentileza de arrolar os livros fundamentais cuja leitura me livre da pecha de ignorante”.

Nonsense, como dizem os ingleses, meu caro doutor. Para que não o inculpem de ignorante, para conquistar mesmo o renome de homem culto, não é preciso ler livro algum. A leitura da primeira frase de alguns volumes é suficiente para isso. Leia a primeira frase, só a primeira frase, e seja culto.

Por que a primeira frase e não outra qualquer? O senhor não tem de fato o hábito dos livros. Porque a primeira frase, espontânea ou trabalhada, intencional ou distraída, é única. Nascida quando era nova e pressurosa a força criadora, se a primeira frase ficou como nasceu, será mais nova e pressurosa do que o resto do livro. Inversamente, se, terminando de escrever os seus originais, voltou o escritor à primeira frase, modificando-a, existe aí o interesse específico do que se chama, em linguagem criminal, a premeditação. A verdade é que, pela primeira frase, podemos conhecer um livro inteiro. E como as teorias devem cansá-lo, passaremos logo à prática.

Tomemos ao acaso um volume, este, A metamorfose, de Franz Kafka. O senhor nunca ouviu falar nele, mas não importa. Atente na primeira frase: “Ao despertar certa manhã, depois de um sono tranquilo, Gregório Samsa encontrou-se em sua cama convertido em monstruoso inseto”. Depois desse início, o senhor não iria continuar a ler esse livro, mas, como lhe adianto que o autor se inclui entre outros importantes para a sua reputação de homem culto, examine melhor a frase que tanto o desagradou. É evidente que o autor é maluco; portanto, diga que Kafka é estranho ou estranhíssimo. É o bastante, pois toda a exegese da obra desse escritor resulta, em última análise, na conclusão de que a mesma é estranha ou estranhíssima. Assim, o senhor já pode falar sobre Kafka uma frase admirável como esta: “Kafka é muito estranho e, no entanto, a sua obra a meu ver é dolorosamente realista”. Nenhum receio de dizer realista, pois é facílimo provar que qualquer livro é realista, sendo mesmo conveniente exagerar o realismo das obras aparentemente fantasiosas.

Se não for exigir muito (e realmente não é importante), passe também os olhos no que se chama orelha do livro. Veja: Kafka nasceu em Praga, fim do século passado, morreu em 1924. Quantos elementos! Um pouco mais: queria que seus livros fossem destruídos depois de sua morte, disposição que seu amigo Max Brod não cumpriu. No coquetel de hoje, procure discutir com alguém se o amigo do escritor procedeu certo ou errado e leia, deliciado, amanhã nas colunas sociais: “Ontem no party de Dodoca Chapdelaine, o dr. G. F. S. explicava à glamorosa Sra. Berta Pinson, née Markovic, que, fosse ele Max Brod, também não teria destruído os originais de seu amigo Franz Kafka. O que prova o seu bom gosto e a profundidade do seu espírito”!

Vejamos um outro livro, este, chamado A sinfonia pastoral, de André Gide. Primeira frase: “A neve, que não cessou de cair esses três dias, bloqueia as estradas”. Que se pode concluir disso? Esse André Gide, pelo nome, provavelmente é francês. Como não consegue deduzir mais nada, afirme: “André Gide é um pouco desnorteante, não há como pegá-lo”. E lembrando-se da neve obstinada, acrescente sem compromisso: “Acho demasiado frios, para o meu gosto, alguns de seus livros”. Se uma pessoa antipática perguntar quais livros, diga: “Com exceção de A sinfonia pastoral, posso dizer que todos”.

Se da primeira frase não for possível obter muito, não se atrapalhe. O príncipe, obra célebre de um italiano antigo, Maquiavel de nome, principia assim: “Todos os Estados, todas as soberanias que têm ou tiveram autoridade sobre os homens, foram ou são repúblicas ou principados”. Vê-se que se trata de obra sobre coisas de governo; seu autor usa de um tom que tanto pode ser experiência do assunto como pedantismo. Talvez seja melhor não se arriscar. Use adversativas vagas: “O príncipe, não obstante tudo, tem passagens de uma sabedoria política inigualável”. Em sociedade tudo se sabe e ninguém irá perguntar-lhe o que o senhor pretende com aquele “não obstante tudo”. Todos ficarão saciados e cultíssimos.

Umas poucas regras gerais: em se tratando de escritores portugueses, elogie a sintaxe lusíada; escritores franceses, a finura, minto, a finesse; escritores germânicos, a densidade; ingleses, a sugestão poética; escandinavos, a bruma misteriosa; eslavos, a psicologia estranha; norte-americanos, os direitos autorais; asiáticos, o misticismo; africanos, o primitivismo; brasileiros nordestinos, a força telúrica. Restam, praticamente, apenas os escritores latino-americanos e os australianos. Comente a imaturidade dos primeiros e, quanto aos segundos, mude habilidosamente a conversa para uma discussão se canguru joga ou não joga boxe.

Finalmente, os clássicos. Como as pessoas que os leram são tão velhas que não frequentam o society, é bastante elogiá-los indiscriminadamente. Fale que nada se pode comparar à perfeição serena das obras clássicas. As romanas, preferível citá-las em latim. Se o senhor tem o cinismo dos vencedores, cite também os gregos em grego. Dá algum trabalho decorar, mas valerá a pena: renome de humanista garantido! Em seu mausoléu (que não seja já), um amigo (quem sabe?) terá a boa ideia de gravar um verso de Eurípides ou Horácio. É a sua glória ultrapassando o silêncio da morte.

Agora grife no fundo de sua memória este conselho: não se refira, em hipótese alguma, a qualquer autor que o senhor realmente tenha lido. Possivelmente, o senhor leu alguns sonetos de Bilac em sua primeira mocidade. Pois não diga nada. Ou diga com um ar misteriosamente afetado: “Bilac? Quem é”? Os colunistas divulgarão a sua boutade e, além de culto, o senhor passará a ser um homem de espírito irresistível.     

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