Periódico
Correio da Manhã

Seção "Imagens urbanas". 

 

Carlos Drummond de Andrade © Graña Drummond

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— A avenida Atlântica foi castigada por uma big ressaca — informou o pai. E o garoto, inquieto: Castigada por quê? Que foi que ela fez?

De fato, por que o mar tirou da Biblioteca Thomas Jefferson os livros de Truman Capote e os jogou à praia, com raiva? Por que partiu vitrinas, arrebatou joias, vestidos, cristais, espalhando tudo isso por aí, à louca?

Se ele estava aborrecido com os acontecimentos políticos, nesse caso devia traçar um plano de operações e passar o susto nos responsáveis diretos por esses acontecimentos, e não indiscriminadamente. Se alguns deles moram na avenida Atlântica, usasse de cautela e habilidade para não molestar os vizinhos, inocentes. 

Não. O mar agiu em estado de fúria gratuita, aterrorizando, ferindo, destruindo a esmo. E orgulhoso de sua ferocidade, parecia gabar-se:

— Esta é uma ressaca digna da era nuclear. Nunca vocês viram uma igual. 

E corremos todos a vê-la, medrosos e fascinados bichos noturnos. Aos altos edifícios da praia, o mar opunha outros, feitos e desfeitos num instante, e sua arquitetura vencia em capricho os estilos antigos e os modernos; casas de espuma, desabando com fragor e ironia em frente às habitações apavoradas do homem, e seus despojos de água iam invadir balcões, janelões, vestíbulos, garagens e casas de máquinas.

E no meio de sua fúria, o mar faz brincadeiras de humor grosso. Expulsa os automóveis como baratas em pânico e, aos recalcitrantes, empurra e derruba sobre a calçada, de rodas para cima. Dá banho nos transeuntes, de preferência os mais bem vestidos. Se um par de namorados, indiferente a tudo, insiste em ocupar um banco de pedra, banco e namorados submergem numa onda que lhes é especialmente remetida, e que estala como vaia. O banco é arrancado, e lá vão os dois, cobertos de areia e ridículo.

Mas são incidentes cômicos para diminuir a tensão do espetáculo. O que o mar pretende não é divertir pelo grotesco nem castigar os políticos nem purificar os vícios e misérias da cidade, lavando-os na onda amarga. Que importância podemos ter para ele, tão pequeninos em nossa bazófia de diretores de pesca e navegação? Que significam para ele nossas construções, ruas, lojas elegantes, veículos e comodidades? Não foi para destruir esses brinquedos civilizados que o mar alçou o colo. 

Deve ter querido apenas manifestar-se o seu poderio, exibir-se a si mesmo como a grande força sem piedade e sem ódio, anterior às criações da cultura, aos ritos sociais. Uma força bela em si, e que atinge a máxima terribilidade em sua beleza. Isto é o mar —  sem explicação maior, como a natureza toda, que não explicou ainda ao homem a que veio e nem mesmo porque o criou também a ele. 

Mas o homem, diante da natureza, é um verme cabeçudo, e providencia bombas de sucção, sacos de areia, serviços de socorro, improvisa na madrugada a luta contra o mar. Defende sua cidade contra o colosso, e este, afinal, retira-se batido.

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