Imagens novelescas — II
Chegando à casa, o primeiro cuidado deste cronista foi esvaziar a bolsa encontrada no lotação, e examinar-lhe o recheio, para o fim de identificar sua proprietária. Logo atinou com a conveniência de dispor os objetos em ordem, e inventariá-los, primeiro porque era sua intenção devolver tudo de maneira regular, devendo a moça verificar, em sua presença, se não faltava nenhum pertence; segundo, porque, vencida a repugnância de mexer em coisa alheia, era legítima, até científica, a curiosidade de apurar que utensílios contém uma bolsa feminina comum, em nossa época, na área cultural do Rio de Janeiro.
Bem, não continha artefatos de couro, metal ou pedra, reveladores de hábitos tribais ainda não estudados; não deslumbrava pela magnificência dos artigos de toalete nem encerrava crimes e paixões em objetos simbólicos. Eis, honestamente, o seu acervo:
Dois tubos de batom; um lápis para cílios; uma escovinha idem; um espelhinho; uma trousse folheada a ouro; um pente; dois grampos: um vidrinho de Nuit de Longchamp: um sabonete de papel; um lenço branco para limpar batom: um dito amarelo estampado; uma flanela para óculos: uma caneta-tinteiro; dois lápis; uma borracha; três clipes; um canivete; uma figa de madeira; uma atadura adesiva: uma ampola de Pernemon forte; uma pastilha de magnésia bisurada; uma bula de Xantinon B12; um chaveiro com duas chaves; uma chave maior, solta; uma folha de papel de embrulho; um pedaço de barbante; um cartão de firma de representações: uma nota de venda no valor de Cr$ 4.550,00, referente a “uma camisola de luxo, uma anágua franzida e uma calcinha com liga”: um porta-níqueis com Cr$ 4.70; um calendário pequeno; dois folhetos; um papel datilografado. Num escaninho dissimulado, o dinheiro maior: Cr$ 950,00.
A agenda foi explorada; em seu interior havia uma flor seca, a fotografia de um desenho, representando um rosto feminino de cabelos compridos, e uma carteira de estudante de medicina; na carteira, o retrato de frente, de uma jovem em que não foi difícil reconhecer a moça do lotação, vista de perfil. Tive a alegria de uma descoberta; mas foi curta, pois em nenhuma folha de caderninho estava o endereço da moça. Os nomes não coincidem, e como os endereços anotados fossem vários, pareceu incômodo e até desaconselhável discar para todos eles, indagando sobre a acadêmica de medicina. Que grau de intimidade teriam essas pessoas com ela, e porque precisavam ficar sabendo que a moça perdera sua bolsa?
Resolvi, pois, telefonar para a secretaria da Faculdade de Medicina, na manhã seguinte, e voltei a guardar na bolsa o que dela retirara. Dormi mal, preocupado com a noite que a jovem estaria passando, sem dinheiro, sem chave de apartamento, numa cidade onde as moças nem sempre estão bem protegidas. Quem sabe se mesmo à noite eu poderia tranquilizá-la? Eram 24 horas. Corri à bolsa, li o papelzinho datilografado: “Chave da Harmonia. Desejo, Harmonia, Amor, Verdade e Justiça a todos os meus irmãos de Círculo da Comunhão do Pensamento. Estou satisfeita e em paz com o universo inteiro e desejo que todos os seres realizem suas aspirações mais íntimas”. Tais sentimentos me penetraram, e conciliei o sono. O resto, a seguir.