Imagens novelescas — III
Às 9h da manhã, pelo telefone, comuniquei-me com a secretaria da Faculdade de Medicina. Expus o objeto da consulta, de maneira a não deixar dúvida: procurava o endereço da senhorita Andréia de Poggia (era o nome da carteira) para restituir-lhe uma bolsa, não para isso assim assim. O homem ouviu-me atenciosamente, e depois:
— Ah, moço, só o senhor tocando outra vez depois das 11h. Eu sou faxineiro.
Mais por pressentimento do que à base de fatos, comecei a sentir que não seria fácil desfazer-me daquele objeto. A razão dizia que dentro de duas horas o endereço de Andréia estaria em meu poder. Uma voz obscura me sussurrou: Duvido.
Às 11 e 15, uma funcionária gentil tomou conhecimento do caso, certificou-se de minha honorabilidade e prometeu tocar logo que colhesse a informação. E efetivamente o fez instantes depois.
— O senhor deve estar equivocado. Não temos aluna chamada Andréia de Poggia.
— Talvez esteja com a matrícula trancada, e não conste da relação.
— Não senhor.
— Mas está na carteira: número 215.
— 215 é um rapaz.
Agradeci e fui à agenda. Para meu desapontamento, a maioria dos nomes anotados não dispunha de telefone, ou eram casas comerciais, que não queriam conversa. Os dois ou três telefonáveis não estavam em casa ou não conheciam nenhuma Andréia. Um, julgando-se vítima de trote, ia dizer uma dessas expressões comuns na Câmara dos Vereadores, mas desliguei. Outro conhecia André — o André Meireles, da Sursan, que perdeu uma pasta com ações da Brahma ao portador, e quase fica maluco; eu tinha achado, é?
Expliquei-lhe que eram matérias completamente distintas, e que, já às voltas com uma bolsa feminina, eu não podia responsabilizar-me pela pasta de André, mas o homem queria de toda maneira estabelecer um vínculo entre a pasta e a bolsa.
Depois de tantas ligações infrutíferas, o jeito era botar no jornal um anúncio classificado. Verifiquei a eficácia desse meio de divulgação, em face das nove senhoras e senhoritas que, pelo fio, em carta ou pessoalmente, se declararam mais ou menos Andréia de Poggia, isto é, à procura de uma bolsa perdida. Mas todas se enganavam a respeito da própria identidade. Os nomes não coincidiam, ou os rostos é que não coincidiam com a foto, embora alguns fossem até mais bonitos. A quarta Andréia esclareceu que ao tirar o retratinho estava mais gorda, a sétima que estava mais magra, nenhuma se zangou quando lhes expliquei que a bolsa era, indubitavelmente, de outra Andréia de Poggia ⏤ a décima, que não aparecia. Outra observação: sendo avultado o número de bolsas femininas perdidas no Rio, muitas (senhoras, não bolsas) se resignam a aceitar outra qualquer, em substituição à que perderam. Mulheres procurando bolsas, bolsas aguardando mulheres; tantos desencontros.
Já nutrindo certo mau humor com relação à Andréia, que assim se ocultava às minhas investigações benignas, mas desejoso de cumprir até o fim o dever de um cavalheiro do velho estilo, que achou uma bolsa de senhora no lotação, anotei os nomes de ruas constantes da agenda, e empreendi pesquisas de campo. E como este rocambole já me vai caceteando, embora empolgue um ou outro leitor que me tem telefonado para saber se achei a bolsa, darei o desfecho na próxima.