Imagens novelescas —  IV

 

Bati em várias casas de bairros vários, e ninguém soube informar-me quem era Andréia de Poggia. Em geral, acolhia-se com ceticismo minha intenção de devolver alguma coisa a alguém. Na bolsa, o dinheiro se desvalorizava, e era de recear que se um dia eu encontrasse a proprietária, já o conteúdo nada valesse.

Contemplando o retrato de Andréia, eu naturalmente lhe emprestava uma personalidade universitária; meditando a frase da Chave da Harmonia, outra Andréia se figurava à minha imaginação. Uma, racional, científica, técnica; outra, sonhadora e mágica, em ligação com o universo através das “Instruções reservadas para uso do irmão do Círculo da Comunhão do Pensamento” e das “Meditações” diárias do mesmo círculo, como se intitulavam os folhetos contidos na bolsa.

Cheguei a pensar que o objeto pertencesse em condomínio a duas moças, tão diversas me pareciam as tendências. Que uma se houvesse apoderado da bolsa da outra, não era agradável admitir. Pensei também sem convicção num caso de dupla personalidade, com visitas alternadas ao anfiteatro médico e às sessões espíritas: a bolsa serviria a ambos os interesses.

Nas idas e vindas em busca da moça, carregava comigo o objeto embrulhado. Às vezes sentia ímpetos de atirá-lo fora, livrando-me da obrigação incômoda. A mesma voz de antes me murmurava então: “Fraco! Fraco!” E daí, mesmo jogada do bondinho do Pão de Açúcar, ela seria talvez encontrada, iniciando novo ciclo de indagações.

Então, redobrava de cuidados, com receio de, por minha vez, perder a coisa perdida; ninguém me censuraria por isso, a não ser eu mesmo, pois a bolsa crescia em mim, cobria-me de imperativos morais, comandava-me. Sentia-me “homem do embrulho”, vagamente suspeito à polícia.

Quando de repente, um mês depois, na rua Uruguaiana, dou de cara com Andréia. Ela mesma, como a vira de perfil e a decorara de retrato.

— É a senhorita Andréia de Poggia?

Não disse que sim nem que não; olhou-me com naturalidade, como se me conhecesse ou me esperasse; apenas murmurou:

— Será que o senhor?... 

— Exatamente. Encontrei sua bolsa. Aqui está.

— Ah, obrigada! Eu tinha certeza de que ela voltaria, sabe? Eu sou espiritualista. Com licença.

E abrindo-a sem cerimônia, o que me chocou um pouco, remexeu até encontrar a agenda e retirar dela a reprodução do desenho.

— Felizmente aqui está ele! 

Perguntei-lhe a quem se referia, pois a figura era feminina, de cabelos compridos.

— Não senhor, é o meu guia, um príncipe hindu, de cabelos longos. Veja que nobreza!

— Tenha a bondade de contar o dinheiro, pedi-lhe, constrangido.

— Não precisa, confio em seu cavalheirismo. O essencial para mim era o retrato do guia. Eu não podia perdê-lo. Mas tinha certeza de que voltaria.

— Escute, d. Andréia…

— Não sou Andréia, interrompeu-me suavemente. Meu nome é Rita Peixoto, comerciária, sua criada.

— Então aquela carteira?

— Bem, de vez em quando a gente gosta de ir a um cineminha, o senhor compreende…

Compreendi; as carteiras são para isso. Contei-lhe então os problemas de consciência que me assaltaram por causa de sua bolsa, os esforços por descobri-la.

— Está vendo? Foi o meu guia que agiu em tudo isso. Me fez perder a bolsa para que o senhor se aproximasse mais da humanidade! Agora está explicado!

Separamo-nos, felizes; ela, com o retrato do guia; eu, livre da bolsa, e determinado a não pegar mais nada que encontrasse em lotação. 

carlos-drummond-de-andrade
As crônicas aqui reproduzidas podem veicular representações negativas e estereótipos da época em que foram escritas. Acreditamos, no entanto, na importância de publicá-las: por retratarem o comportamento e os costumes de outro tempo, contribuem para o relevante debate em torno de inclusão social e diversidade.
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