Imagens - cartaz

 

Parece que muita gente vai recuperando a ideia de pai, graças ao fogo publicitário do Dia do Papai. Metralhados continuamente por slogans do rádio, da tv e do jornal, pessoas distraídas ou muito ocupadas, que nem se lembravam mais da existência do autor de seus dias, correm à loja mais próxima e adquirem para ele uma gravata, um cachimbo ou um refrigerador – e com essa compra levam para casa a bonificação de um fervoroso sentimento filial, produto que andava meio em falta. A experiência não permite ainda avaliar o tempo de duração útil desse sentimento, de contextura delicada e frágil, mas é de crer que maciças promoções do Dia do Papai consigam, ao cabo de 20 anos, fomentar no indivíduo um autêntico, vigoroso e imperecível amor ao pai.

Há, é certo, equívocos de ordem verbal, inevitáveis. Ouvindo dizer que nove de agosto é o Dia do Papai, alguns sujeitos permanecem perfeitamente embotados, porque Papai, para eles, já não é o homem que os gerou; é um pronome pessoal reto da primeira pessoa, usado a todo instante em frases como “O papai não dorme no ponto”, “não venha com essa pra cima do papai”, “o papai aqui é o maior”. Habituaram-se de tal maneira a chamar-se a si mesmos de papai, e a ouvir outros semelhantes que igualmente se identificam mediante essa expressão, que papai para eles é toda gente e ninguém. O Dia do Papai não lhes sugere, assim, um conteúdo positivo; é o dia de qualquer um não envolvendo efusão ou impulso aquisitivo. Esses levarão um pouco mais de tempo – uns 200 anos – a perceber a natureza sentimental da data, mas a publicidade também trabalha para o futuro.

O grupo social a que se dirige de preferência a promoção afetiva do Dia do Papai é naturalmente o das crianças, que, como se sabe, da classe média para cima, dispõem hoje de alto poder aquisitivo. O autor destas linhas tem visto no seu bairro meninos que levam trocados de algibeira superiores, num mês, ao ordenado de um servente de repartição. O Dia do Papai lhes dá ensejo de canalizar para um fim comovedor essa abundância de numerário, nem sempre aplicada com discernimento. E, ainda, lhes acena com a possibilidade de novas receitas, pois são tentadores os prêmios em dinheiro instituídos para as composições infantis que definam melhor a doçura das relações entre pai e filho e celebrem os dotes privilegiados do pai de cada um. Provando literariamente que seu progenitor é muito maior do que os de seus colegas e amigos, o garoto até 12 anos de idade ganhará dez abobrinhas, que servirão, quem sabe, de sinal para compra de uma lambreta – a grande Máquina contemporânea, que por sua vez, constituindo aspiração profunda de adolescentes, desperta impulsos afetivos muito parecidos com o amor classicamente reservado aos pais.

E há o aspecto vocacional também relevante: entre os pequenos autores dos melhores textos poderão ser selecionados desde já futuros técnicos de publicidade, para as promoções de amanhã, tipo Father’s Day.

Por essas e outras, os pais, se não existissem, deviam ser inventados.

carlos-drummond-de-andrade
As crônicas aqui reproduzidas podem veicular representações negativas e estereótipos da época em que foram escritas. Acreditamos, no entanto, na importância de publicá-las: por retratarem o comportamento e os costumes de outro tempo, contribuem para o relevante debate em torno de inclusão social e diversidade.
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