Imagens na rua

 

Parte da população do Rio de Janeiro está sofrendo uma angústia nova: a angústia do melhor. Bairros que eram servidos (ou desservidos) por lotações sem conforto nem amenidade, sob o signo do desastre, passaram a dispor, em substituição a eles, de uma frota de ônibus elétricos, macios, tranquilizantes, mais baratos, operados por pessoal cortês... e ninguém se conforma com isso.

— O pior disse-me um amigo morador no bairro Peixoto — é que o diabo desses ônibus, além das vantagens que oferecem, ainda prometem aos usuários, para breve, ar condicionado e música em surdina. Não! Nunca! Isso não existe! Viva o lotação abagunçado, caro e até mesmo trágico, mas tão real, tão verdadeiro! Tão carioca!

Não fantasio; aí estão os psiquiatras, que não me deixam mentir. A clientela deles vem aumentando nos últimos dias: gente que se queixa de não poder trabalhar, porque a vida melhorou no setor de transportes. E quando a vida melhora em algum setor, nós, em primeiro lugar, não acreditamos; depois, não acreditamos ainda; em seguida, começamos a desconfiar de desígnios maquiavélicos, escondidos por trás do novo aspecto azul das coisas, simples fase intermediária de uma situação ainda mais negra do que a anterior; afinal, derrotados, convencemo-nos e protestamos.

A maior queixa contra os novos veículos é que eles não correm. Se não correm, não são perigosos. Ora, o perigo entrou a fazer parte obrigatória de nossa existência cotidiana, era o sal, o acicate da vida, e sem perigo iminente e contínuo, como poderemos viver aspirando à tranquilidade, estado neutro por excelência? Porque nossa aspiração, nosso maior sonho ainda é tranquilidade. Se ela nos é oferecida, ficamos sem aspiração. Ou passamos a ter esta: voltar à condição atribulada.

Pelo visto, irão achar-me o principal acionista da Companhia de Transportes Coletivos, que opera os ônibus elétricos, ou pelo menos seja preposto de relações públicas. Ah, meu São Cristóvão, sou um reles passageiro de lotação, também estou viciado no plaisir de dégout e também me queixo de novidades. O lotação era um de meus mais queridos assuntos: brigas, confusões dentro e fora deles, simples diálogos na fila nutriam o comentarista. Receio que o trolley não me forneça matéria cronicável. É demasiado funcional e cumpridor de deveres. Falei ao trocador, num deles, e não lhe vi nada de pitoresco; era um homem de seus 50 anos, polido, até elegante no uniforme sóbrio; sóbrio e limpo. A informação que me prestou não foi dada em gíria, e pelo tom parecia antes em inglês da Inglaterra. Ai, este Rio está perdendo o sabor. A Zona Norte aproveite bem seus lotações, que fazem da vida uma aventura sempre renovada. Nós, os sulinos, entramos na pauta. E os psiquiatras ainda dizem que acabaremos por aceitar, pelo hábito, as novas comodidades! É demais, para o nosso masoquismo.

carlos-drummond-de-andrade
As crônicas aqui reproduzidas podem veicular representações negativas e estereótipos da época em que foram escritas. Acreditamos, no entanto, na importância de publicá-las: por retratarem o comportamento e os costumes de outro tempo, contribuem para o relevante debate em torno de inclusão social e diversidade.
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