Imagens e ofícios
Não sei que espécie de discurso fará o ministro do trabalho, no Dia do Trabalho. Sei que, fosse eu ministro, não saudaria a comunidade trabalhista, que é uma abstração, e como tal nem percebe que foi saudada. Escolheria antes umas vinte profissões ou ofícios e, sem demagogia, lhes mandava o meu verbo. Não lhes prometeria nem pediria nada; pura saudação, ou nem isso: mero reconhecimento de existência, extra-sindical e humana. Porque mal reparamos em certas categorias de trabalhadores, dos quais nos servimos largamente. Assim, neste 1° de maio, meu bom dia vai:
ao pintor a pistola especializado em geladeira, que só é chamado a restaurar geladeiras na última lona, e não goza dos efeitos da refrigeração, salvo o resfriado, quando se esquece de desligar o aparelho;
ao aprendiz de paletó, sem chance de progredir como o calceiro pelo número cada vez menor de pessoas que usam aquela peça de vestuário;
ao acabador de sapato Luís XV, que nada sabe da história da França, criadora de uma vaidade que não o atinge, pois o louvor à peça bem acabada se dirige à mulher que a ostenta;
ao drageador de laboratório farmacêutico, inteiramente cético quanto às virtudes terapêuticas do produto que manipula monotonamente, e que nem sequer figura no dicionário, onde não há drajeia, mas grajeia;
à sentinela, marmorizada no posto mesmo quando a chuva inunda o pátio do quartel e sobe a seus joelhos militares;
ao lambe-lambe, que não experimenta a doçura dos parques onde passa a existência, pois sua função não é namorar, é fotografar namorados, cada vez mais raros e menos fotografáveis;
ao cortador de açougue, sinistro, salpicado de sangue, cheirando a vísceras, contudo alvo de coração, e quem sabe até se vegetariano;
ao garrafeiro, que de todas as bodas só leva o casco;
ao apanhador de papel metódico, lento, vergado à corcunda do saco;
à alisadeira a quente e frio dos salões de beleza, com a responsabilidade de corrigir em vão a ingrata natureza;
ao professor de piano, teoria e solfejo a domicílio, que conhece todos os pianos desafinados e gênios precoces do bairro, e nada pode fazer para evitá-los;
à explicadora de curso primário e admissão, da qual se exige antes de tudo que tenha muita paciência e a erudição de Ruy Barbosa;
à telefonista da Light ou particular, intermediária de mil queixas, ordens, descomposturas e beijos, sem confidente para seus próprios segredos;
ao ascensorista, condenado a 6 ou 12 horas diárias de prisão celular em movimento;
à acompanhante de viagem, Deus sabe como é cacete fazer as viagens dos outros, cuidando de malas e prazeres dos outros;
à empregada para todo serviço em casa de pequena família de classe média incluindo gatinho e cachorrinho de estimação, com direito à meio sábado e meio domingo de descanso;
ao condutor de bonde, que não conduz mas é conduzido no mar de pingentes e anda no ar e na confusão de braços, pernas e troncos, em seu uniforme azul suado;
ao incomparável lixeiro, do qual não é preciso dizer nada, pois o nome diz tudo;
ao menor, simplesmente menor, procurado como tal para as pulverizações do salário mínimo;
à mocinha da casa de discos, que gostaria de gostar de ritmos americanos se não ouvisse o dia inteiro e a todo volume Elvis Presley, Sammy Davis Jr., Bill Halley e seus cometas;
ao linotipista do Jornal do Comércio, especializado em compor balancetes de sociedades anônimas, com milhões e milhões de cruzeiros fantásticos, e que jamais terá a alegria de compor uma notícia de futebol;
ao taquígrafo da Câmara, de todas as câmaras, coitado!