Há alguns anos, tendo feito no jornal uma referência ao fato de Machado de Assis preferir ser cremado a enterrado, recebi do falecido professor Berardinelli uma carta, na qual indagava pelo volume que continha essa passagem. Ele me adiantava já ter realizado inutilmente uma boa batida por conta própria. Remexi todos os livros de crônicas das obras completas sem achar nada; revirei de novo as páginas todas; cheguei a duvidar de minha lembrança, só encerrando a minha busca quando me senti nas cercanias do frenesi neurótico.

Pois outro dia, folheando ao acaso as crônicas semanais de 1895, lá estava bem explicadinho: “De mim confesso que tal é o medo de ser enterrado vivo, e morrer lá embaixo, que não recusaria ser queimado cá em cima.” Seguia-se uma rápida e alegre descrição dos funerais de Heitor, derivativo muito comum no mestre quando se via forçado, mesmo sob pseudônimo, a dar uma opinião de caráter íntimo.

Uma coincidência fez com que eu lesse também no mesmo dia uma outra crônica, dessa vez de Carlos Drummond de Andrade, falando no forno crematório, cujo projeto morreu sem glória, há algum tempo, na Câmara de Vereadores. Perguntava o escritor: “Por que não se instala essa coisa simples, higiênica, prática, econômica e decente?”

Por que eu não sei; ainda que o soubesse, talvez não o escrevesse, pois há gente viva demais na praça dos mortos. Mas o que é de chocante justiça é o argumento de CDA: “Os que são contra o forno, por motivos de ordem religiosa ou de sensibilidade, continuariam a ter sepultura a seu gosto; nós outros, os que não atribuímos significação especial a nossos futuros esqueletos, seríamos corretamente queimados e nossas cinzas teriam o destino que predeterminássemos, inclusive o de serem lançadas fora, que me parece o menos pretensioso e o mais natural de todos.” Mas para este pedacinho é que espero atenção particular: “Como está é que não está certo: indivíduos de um grupo social impedindo a indivíduos de outros grupos disporem de seus respectivos despojos sem ofensa à coletividade.”

Nada de mais simples e cortante se poderia dizer contra a impertinente discriminação da lei. É perfeito, irrespondível. Se os governos possuíssem realmente uma orientação prática, e não teórica, a evidência dessa injustiça iria bater com força na testa de todos, corrigindo-se o erro. Mas voltemos à realidade.

É claro que também eu tenho medo de ser enterrado vivo, e nem mesmo morro de amores pelo enterro depois de morto. Confesso: prefiro virar uma fumacinha discreta, sumir depressa no último ventinho da minha presença sobre a terra. O meu defunto ainda me agrada menos que os defuntos alheios. Sei de um poeta moço, que me falou com entusiasmo sobre os funerais de praxe, de tocante beleza para ele, que não trocaria em hipótese alguma a pompa melancólica de seu próprio enterro por aquele forno prático, higiênico e decente. Respeito de todo essa opinião. Assim como de todo desrespeito aqueles que não me permitem o direito de tornar realizável o meu funeral de acordo com a minha vontade. Vocação para enterro é que não tenho nenhuma. Tudo aquilo, aquelas flores, aqueles círios, aquelas aspersões, aquelas cerimônias, ah, tudo aquilo me enoja antecipadamente com um rito que não faz parte dos meus interesses, das minhas convicções, dos meus costumes, do meu temperamento.

É perfeitamente justo que o católico queira assegurado o seu direito de funeral católico; os índios do Xingu devem enterrar os seus mortos de acordo com as tradições da tribo; os hindus que espalhem as cinzas de seus parentes no rio sagrado. E nós?

Nós, que desejamos simplesmente ser queimados, não temos vez. É intoleravelmente arbitrário, penso eu.

Tenho o meu voto para a Constituinte da Guanabara já apalavrado. Mas teria feito meu o candidato que fizesse seu o lema do nosso forno crematório.

paulo-mendes-campos
As crônicas aqui reproduzidas podem veicular representações negativas e estereótipos da época em que foram escritas. Acreditamos, no entanto, na importância de publicá-las: por retratarem o comportamento e os costumes de outro tempo, contribuem para o relevante debate em torno de inclusão social e diversidade.
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