Foi no saguão de um arranha-céu no centro da cidade. O artista, ao que parece, guardava seus quadros atrás do balcão da portaria, de onde os tirava para mostrá-los aos olhos maravilhados do cabineiro. O elevador ia sendo lotado aos poucos, o cabineiro olhando as pinturas com o mais completo alumbramento estético. As pinturas eram horrorosas, mas o artista era plenamente simpático e transmitia aquela sensação tranquilizadora de que pintava realmente por uma inelutável fatalidade. Pintor ruim, mas sincero.

As pessoas que iam entrando para o ascensor olhavam também para as telas, alguns com interesse, outros apenas com polidez.

“Ah se eu tivesse dinheiro para comprar um quadro deste!” ⏤ suspirou o cabineiro, enfiando os olhos enternecidos pela perspectiva de uma paisagem campestre. Os minutos passavam, mas ninguém fazia qualquer sinal de protesto. Ali estava um artista, a sorrir satisfeito de ver sua obra admirada. “Mas pintura que eu gosto mais ⏤ voltou a falar o cabineiro ⏤ é mato com um córrego passando.” O pintor fez uma cara inteligente e eufórica, e foi até o balcão, produzindo imediatamente um quadro em que se viam árvores e um córrego. O cabineiro sentiu-se transportado e perguntou quanto era. 300 cruzeiros, respondeu-lhe o artista. Era muito. Mas talvez no mês que vem, quando pagaria a última prestação do rádio, seria capaz de comprá-lo.

O elevador estava lotado. Nesse momento, percebeu-se que um problema íntimo dividia o cabineiro: se ele fosse cumprir o seu dever, carregando os seus passageiros para cima, deixaria o artista subitamente sozinho, quer dizer, sem plateia. Que fazer? Deixar as pessoas esperando? O dilema parecia insolúvel, mas não para um homem tão delicado. Ele esperou que chegassem mais três candidatos à segunda viagem do elevador e os deixou ali como plateia. Só então, depois de dar um último olhar enamorado ao córrego, fechou as portas e desapareceu.

paulo-mendes-campos
As crônicas aqui reproduzidas podem veicular representações negativas e estereótipos da época em que foram escritas. Acreditamos, no entanto, na importância de publicá-las: por retratarem o comportamento e os costumes de outro tempo, contribuem para o relevante debate em torno de inclusão social e diversidade.
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