Foi anteontem no Jardim de Alá, às 21h00 da noite. Um homem que acabara de comer o seu jantar dentro de uma lata, rapou um resto de macarrão do fundo e o atirou sobre a calçada. Não se sabe de onde, da moita de capim, do desvão da ponte sobre o canal, surgiu um garotinho escuro, de uns oito anos, esmulambado, que se debruçou sobre aquele resto de comida empoeirada, e começou a comer sem pressa, certo de que ninguém lhe disputaria o jantar, sacudindo os fios de massa para limpá-los um pouco. Pode parecer um exagero sentimental dizer que apareceu um cachorro. Mas estou testemunhando apenas este humilde e banal episódio: apareceu um cachorro, um vira-lata também magro, fungou sobre o menino e desapareceu.

Um rapaz, que presenciava o acontecimento, passou a mão pela cabeça e suspirou com sinceridade:

⏤ Meu Deus do céu!

Aí, uma senhora que se dirigia a um automóvel, em companhia de um senhor, ouvindo a exclamação, disse:

⏤ Qual, a gente não deve se impressionar. Ele não está com fome coisa nenhuma! Isto é pura encenação!

O casal entrou no carro, a senhora deu ainda um olhar sobre o menino que comia os últimos fios de macarrão, e partiram os dois em arrancada.

O que dizer? Vulgarmente, apenas, que tenho pena. Tenho pena do menino comido pela fome, e tenho pena daquela senhora, comida de remorso, mas fazendo força para engolir a piedade que lhe subia das entranhas de mulher como um acesso de vômito.

paulo-mendes-campos
As crônicas aqui reproduzidas podem veicular representações negativas e estereótipos da época em que foram escritas. Acreditamos, no entanto, na importância de publicá-las: por retratarem o comportamento e os costumes de outro tempo, contribuem para o relevante debate em torno de inclusão social e diversidade.
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