Uma jovem, testemunhando o monstruoso crime do edifício Rio Nobre, diz que a polícia errou ao cronometrar, durante a reconstituição, no tempo que ela teria gasto em ir da TV-Rio à rua Aires Saldanha. Porque no dia do crime teria usado sapato baixo, andando mais depressa que no dia da reconstituição, quando calçava sapato alto.
Isso me fez lembrar uma questão que às vezes me ocorre: porque a polícia, praticamente, não usa mulheres na investigação de crimes enguiçados? Creio que, pela própria natureza da inteligência feminina, elas seriam mais eficazes do que os homens na tarefa de surpreender falsidades e descobrir onde e como se esconde a verdade. O homem é um pobre animal que raciocina; a mulher é um animal que adivinha; o homem pensa através de uma conquista dolorosa de fatos concretos; a mulher pensa aos saltos, intuitivamente, como se não estivesse pensando; às vezes, como se estivesse a fazer uma operação diametralmente contrária ao pensamento. É claro que adivinhar não pode ser prova de coisa nenhuma; seria, no entanto, o melhor indício para se chegar à prova.
Outra coisa, a respeito da forma de conhecimento próprio às mulheres, não disse Nietzsche, à saciedade, em várias passagens de seus livros. No momento, sou capaz de citar apenas um epigrama: “A mulher inventa enquanto o homem descobre”. Essa capacidade instintiva de inventar, tão misteriosa quanto o sentido de orientação de um pombo-correio, poderia ser utilizada na investigação de crimes confusos; do mesmo modo (se me perdoam) que os cães policiais emprestam o seu faro para tocaiar um criminoso.
Observações como a do sapato escapam geralmente aos barbados; mas não é só nisso que as mulheres poderiam ser úteis à polícia. Pelo menos, quanto a mim, a experiência desmoralizadora que tenho da intuição feminina é uma das coisas que me põem a matutar sobre a estranheza deste mundo. Ou você acha que não tenho razão?