Publicada em Bom dia para nascer: crônicas publicadas na Folha de S. Paulo. Seleção e posfácio de Humberto Werneck. São Paulo, Companhia das Letras, 2011, p. 198.
Num pequeno espaço de tempo, encontrei cinco vezes a citação. Cinco vezes e cinco formas diferentes. Algumas passam por perto do original, mas até o ritmo está errado. Uma delas diz: ou todos se locupletam, ou restabeleça-se a moral pública. Outra é assim: instaure-se a moralidade no país, ou nos locupletamos todos. Só uma constante: o verbo locupletar, que acentua na frase o efeito caricato.
Quanto à autoria, nenhuma dúvida. Todo o crédito para o Stanislaw Ponte Preta, pseudônimo com que o Sérgio Porto se tornou conhecido. Sabem de onde tirou? Do Oswald de Andrade. Ou melhor: do Serafim Ponte Grande. Como seu irmão Flávio, o Fifuca, Sérgio era amigo do Oswald. Foi o Oswald quem lhe abriu a porta para um coloquial irreverente, que inaugurou o desbocado Stanislaw.
Começou aí o risonho festival de besteira que assola o país, o febeapá. Quem duvidar que leia O homem ao lado. Foi o livro de estréia do Sérgio. Está hoje esquecido, porque lhe falta o sal do Ponte Preta, irmão ou primo do Ponte Grande. O cronista Sérgio Porto nesse primeiro livro buscava um lirismo à Rubem Braga. Não funcionou. Já o Stanislaw tomou o rumo oswaldiano e resiste. Achou o seu próprio caminho. O que envelheceu foram certas circunstâncias. Mas não perdeu a graça.
Aliás, atualíssima está a anedota que deu origem à máxima da tia Zulmira. A tal sentença que de várias maneiras hoje se repete a três por dois. Não quero bancar o Brício de Abreu, que o Sérgio chamava de testemunha ocular da história. Mas vi como surgiu na Câmara a piada. Selado o acordo, de repente o deputado se achou em desvantagem. Gravíssimo, voz solene, contou então a história do sapateiro e sua bela mulher. Um dia lhe apareceu um sócio capitalista e o sapateiro fez fortuna.
Vapt-vupt, ei-lo um próspero empresário. Mas abriu os olhos e se deu conta de que o sócio ia assumindo o monopólio da parceira. O sapateiro não teve dúvida. Alto lá! Ou todos nos locupletamos, ou restaura-se a moralidade. Foi o Stanislaw que pegou o dito e o popularizou. Agora volta e meia reaparece. Virou apólogo e máxima. Vamos ficar de olho no desfecho. Se houver conchavo, lá entre eles todos se locupletam. Fica tudo por isso mesmo e adeus moralidade.