RIO DE JANEIRO Eu não tinha a intenção de dizer logo assim de saída. Mas já que a Folha me entregou, confesso que sou mesmo antigo. Modelo 1922. Ano do Centenário da Independência, da Semana de Arte Moderna, do Tenentismo, da fundação do Partido Comunista, da inauguração do rádio etc. Suspeito que só eu e o rádio estamos funcionando neste mundo povoado de jovens. Mas juventude tem cura. Eu também já fui jovem. É só esperar.

Bem mais antiga é a origem do Dia do Trabalho. Começou em 1886, com a greve de Chicago. A polícia, claro, compareceu. Resultado: 11 mortos – quatro operários e sete policiais. Primeiro e último escore a favor do trabalho. Três anos depois, em 1889, lembrando Chicago, os socialistas em Paris inventaram o Dia do Trabalho.

A data chegou depressa ao Brasil, mais subversiva do que festiva: em 1893. A recente República baixou o pau. Vem de longe o axioma: a questão social é uma questão de polícia. Só em 1938 surgiu aqui, oficial, o Dia do Trabalho. Também dia do pelego e do culto à personalidade do ditador. Em 1949, finalmente, a data virou lei. Lei e feriado.

Mês de Maria, mês das noivas, mês da flor-de-maio, maio sugere pureza e céu azul. "Só para meu amor é sempre maio" – cantou o primeiro poeta, o Camões. Um dos últimos, Drummond, escreveu uma "Carta aos nascidos em maio". Viu neles uma predestinação lírica, a que chamou "o princípio de maio".

Em maio, e no dia 1º, nasceram José de Alencar (1829) e Afonso Arinos (1868). Dois escritores, dois verdes. O indianista e o sertanista. Ambos enfática e ecologicamente brasileiros. Não será mera coincidência a data da certidão de nascimento do Brasil. A carta de Pero Vaz de Caminha é de 1º de maio de 1500. Como o Brasil também é Touro, está difícil de pegá-lo à unha. Mais poeta que escrivão, Caminha foi o primeiro ufanista. Também pudera: em 1500 tudo ainda estava por ser destruído.

Só depois chegaram a inflação, a corrupção e a dívida externa. Há dez anos, em 1981, para celebrar o Dia do Trabalho, houve a explosão do Riocentro. Planejada em segredo, ao contrário da implosão de ontem em São Paulo, vem agora a furo a farsa do inquérito militar. Dá até vergonha de ser brasileiro. Maio, porém, está aí. 1º de maio: bom dia para começar. Ou recomeçar.

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