De d. Pedro 2° ao mais obscuro dos cidadãos, é difícil encontrar um brasileiro que nunca tenha cometido, em segredo ou às claras, o seu poeminha lírico, ainda que perdido nas dobras da remota mocidade. Em versos duros ou de pé quebrado, sem inspiração e sem assunto, o soneto é sempre uma tentação para o brilhareco, a que não pode faltar a chave de ouro. Tudo cabe num soneto: graça e desgraça, comédia e tragédia, amor e desamor, oração a Deus e saudação à pátria.
É possível que a profissão de poeta ainda não exista. É até possível que nunca venha a existir como ofício remunerado, como meio de vida. Nem por isso se pode garantir que nunca será regulamentada, depois de legalmente criada, ou definida. Tudo entre nós é motivo de lei, de decreto e de regulamento. Por que os poetas estariam isentos da fúria legiferante? De resto, mais de uma vez já se fez a tentativa de enquadrar, estimular e proteger a poesia, o que em última análise significa estender a proteção do poder público aos poetas.
Academias existem em todos os planos ― federal, estadual e municipal. Outras entidades do gênero estão por toda parte, já que em parte nenhuma faltam os poetas. Há quem sustente que o Brasil é a pátria da poesia. Raro seria o cidadão brasileiro que nunca perpetrou os seus versos. Milhares ousaram chegar até o soneto. Ou pelo menos tentaram os 14 versos a duras penas, até fechá-los com chave de ouro ou com qualquer outra chave. Poucos terão sido tão mal sucedidos como o Bentinho de Dom Casmurro. Como acontece com frequência, o primeiro verso lhe veio de graça: “Oh! flor do céu! oh! flor cândida e pura”!
Seminarista, numa noite de insônia, o próprio Bentinho não sabia como e por que lhe saiu esse verso da cabeça. Decassílabo, logo se impôs como o início de um soneto. Como em tantos sonetos conhecidos, não havia aí uma ideia, mas, sim, apenas uma exclamação. Podia não significar nada, mas o autor lhe achou certa graça. Depois de repeti-lo, concluiu que era mesmo bonito. A flor que abriria a primeira estrofe de forma exclamativa tanto podia ser a Capitu, como a virtude, a poesia, a religião, ou qualquer outro conceito a que a metáfora calhasse.
Entusiasmado com o primeiro verso que veio de graça, o improvisado poeta, impaciente, tratou de encontrar a chave de ouro. Não era preciso esperar a feitura de mais 12 versos para desembocar no derradeiro. Afinal, uma chave de ouro pode ser fundida antes da fechadura. Depois de muito suar, veio o verso final, que poria a peça entre os sonetos mais gabados: “Perde-se a vida, ganha-se a batalha”! Com uma nota sarcástica bem machadiana, a tentativa do Bentinho prossegue sem que, entre o primeiro e o último, se ajeitem os outros 12 versos. Na busca da inspiração, o poeta transpõe duas palavras e o verso muda de sentido: “Ganha-se a vida, perde-se a batalha”!
A crer no que diz muita gente, a começar por alguns poetas consagrados, raríssimo é o brasileiro que nunca passou por essa experiência do Bentinho. Carlos Drummond de Andrade é um que disse que todo brasileiro um belo dia se sentiu no direito ou no dever de perpetrar os seus versinhos. O mais provável é que o consiga, pouco importa a qualidade do resultado final. Se o caso do leitor é de soneto, recomendo a leitura de O mundo maravilhoso do soneto, de Vasco de Castro Lima. São 1.099 páginas, todas dedicadas ao estudo e à ilustração dessa popularíssima forma fixa de poetar. Criado por Giacomo da Lentini, no século 13, o soneto foi consagrado por Petrarca e daí passou a todas as literaturas, sempre bafejado pelo gênio dos grandes poetas, a começar pelo Dante e Shakespeare.
O parnasianismo foi de certo modo a idade de ouro dos sonetistas. Olavo Bilac, o príncipe dos poetas e Guimarães Passos escreveram a quatro mãos parnasianíssimas o Tratado de versificação, que tem tido sucessivas edições. Lá está dito que, apesar da guerra que lhe tem sido movida, e apesar do abuso que dele têm feito os poetas medíocres, o soneto é a mais difícil e a mais bela das formas da poesia lírica, na métrica brasileira contemporânea. Se o veneno do escorpião está na cauda, o mérito do soneto está no último verso, escreveu Theophile Gautier. Bilac e Guimarães Passos, que em 1904 fizeram um Dicionário de rimas, reconhecem que a tradição manda que o último verso seja sempre uma chave de ouro.
Cultivado na Espanha por Cervantes e Teresa de Ávila, em Portugal por Sá de Miranda e Camões, no Brasil o soneto sempre encontrou poetas que o estimassem e servissem, afirmam os autores do Tratado de versificação. A nossa literatura, dizem eles, usou e abusou dessa forma. Depois de dar exemplos de sonetos de todo gênero, do lírico ao épico, do clássico ao humorístico, Bilac e Guimarães Passos admitem que o soneto deixou de ser uma composição sujeita a regras imutáveis e severas, ou seja, “um pensamento de ouro num cárcere de aço”. Passou a dispor de “uma liberdade folgada”. Folgada é aqui um exagero, sobretudo quando se pensa na campanha que viria com os modernistas de 1922 contra a oficina parnasiana. Só depois, com o correr do tempo, o soneto recuperou o seu lugar e contou com a enriquecedora colaboração de tantos modernos ― Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade, Mário de Andrade e Vinicius de Moraes. A estes se seguiu uma nova entronização do soneto, com a geração que chegou a ser chamada de neo-parnasiana.
Já se fez no Rio a mostra do artista desconhecido, com o apoio de entidade oficial. Aliás, em quase todas as cidades há hoje o costume simpático de abrir um espaço para os artistas, primitivos ou não, populares ou não, a exemplo do que também se vem fazendo com os artesãos. Se o artesanato e as artes plásticas recebem ajuda e estímulo do poder público, por que a poesia ficaria órfã de proteção? Talvez porque os poetas sejam muito mais numerosos. Afinal eles não precisam de matéria prima, nem de tela, óleo e pincel. Basta-lhes papel e lápis. Ou nem isto, já que poetas há que são capazes de, inspirando-se ou transpirando, compor os próprios versos e guardá-los de cor. Nem sempre, como no caso do Bentinho, o esforço está fadado ao fracasso. Se, como se diz, o poeta nasce, nem por isso a versificação deixa de ser um aprendizado.
O colégio eleitoral vai em breve ser chamado para decidir se o Brasil continua uma república, ou se restaura a monarquia. Não sei se os monarquistas vão usar na propaganda o argumento de que d. Pedro 2º era poeta. Seus sonetos passam por medíocres, mas nem por isso deixaram de ser celebrados. Osório Borba escreveu que d. Pedro foi o pior poeta da língua. Pelo menos um de seus versos é muito lembrado: “Andar e mais andar é a vida a bordo”. Prosaico? Talvez não conviesse a sua majestade derramar-se em versos líricos. O lirismo ficava para as cartinhas de amor. Na república, quantos presidentes terão poetado ou sonetado? Pelo menos um, Jânio Quadros, figura como poeta numa antologia em que comparece também o dr. Ulysses. Sim, Ulysses Guimarães. Um e outro eram estudantes de direito, o que remete os sonetos de ambos para a conta dos pecadilhos da juventude.
Entre os homens públicos de todos os tempos, a começar pelos atuais, não são poucos os que versejam. Houve alguns poetas parlamentares. E há parlamentares que fazem versos. Cunha Lima, governador da Paraíba, é poeta matriculado, com a vantagem de ser repentista. Como o espírito, a poesia sopra onde quer. Há por isso mesmo poetas em todas as profissões, como pude verificar no Dicionário de poetas contemporâneos, do prof. Francisco Igreja. Camelo, oficial do Exército, detetive, manequim, magistrado, sacerdote, teólogo, dona de casa, prático de farmácia, estafeta, motorista, médico, comerciante, transformista ⏤ todas as profissões convivem com a poesia. Ainda assim, há uma Associação Profissional de Poetas do Estado do Rio de Janeiro, que realiza recitais e palestras. Em Belo Horizonte, há, em contrapartida, uma Associação Brasileira de Poetas Amadores. Já em Uberaba se imprime uma Revista Internacional de Poesia, que se diz “a de maior circulação no país e no exterior”. Além de internacional, a poesia é ali “mais atual”.
Com tantos poetas, profissionais, amadores ou bissextos, passadistas ou modernos, ostensivos ou enrustidos, quantos serão os melhores sonetos brasileiros? A pergunta tem sido feita sucessivamente e as respostas variam segundo os gostos e as épocas. Só de poetas não incluídos nas escolas literárias, assim como de poetas pós-1922 alheios ao modernismo, Vasco de Castro Lima relacionou nada menos de 230. Todos brasileiros. Já para José Lino Grunewald são duas centenas, assinados por 79 poetas, entre portugueses e brasileiros, os Grandes sonetos da nossa língua. Sendo, diz ele, “quase um esporte em matéria de poesia”, o soneto “instiga eventuais amadores e profissionais do versejar”. O profissionalismo aqui, bem entendido, não implica qualquer tipo de remuneração. O que se sabe, pelo contrário, é que a poesia, além de gratuita, costuma atrapalhar a vida profissional de quem a professa...