Estive relendo outro dia A voz humana, de Cocteau. É peça de um só ato e um só personagem. Uma pobre mulher amarga passa todo o tempo falando ao telefone – chora, ri, soluça, discute, mente. Do outro lado do fio está um homem, que o espectador não vê nem ouve. É um homem vulgar, que está abandonando aquela amante para se casar.
Tive a ideia – que deixo aqui para algum amigo dado a teatro – de escrever A outra voz. Não para juntar as duas em um diálogo que, afinal, banalizaria demais a pequena peça. O homem aparecerá sozinho, despedindo-se, pelo telefone, da amante em liquidação. Ele certamente lhe dirá gentilezas banais, e inúteis palavras de consolo. Estará talvez falando de um balcão de bar, com alguém esperando na mesa... Relendo a peça de Cocteau – que certa vez vi representada pela sra. Morineau de uma maneira pungente – me impressionei mais uma vez com a força dramática dessa historieta de todos os dias. O autor não quis – ele mesmo o escreveu – procurar solução de nenhum problema psicológico. Não há também, golpes de surpresa, que seriam facílimos de dar, mantendo o espectador em suspenso, ou levando-o a fazer, até certa altura, ou mesmo até o fim, uma ideia errada da situação. Nada. A mulher reage da maneira mais normal, ora com despeito, ora com raiva, às vezes criando forças e orgulho, às vezes se humilhando e confessando seu desespero. Cocteau escreveu que a peça lhe foi inspirada pela lembrança de uma conversa telefônica, com a “singularidade grave dos timbres, a eternidade dos silêncios”.
Minha sugestão talvez não dê resultado nenhum e acabe em um ato cacete e sem interesse. Acho, entretanto, que seria interessante, em face do desespero mal dissimulado da mulher, estudar o outro, o desespero seco e frio do homem. Sua impaciência em atirar fora de sua vida aquele bagaço; seu remorso, seu medo de ferir, de fazer mal além do necessário, seu inconfessado medo de provocar um suicídio. Creio que em situações semelhantes as mulheres são muito mais cruéis que os homens. De qualquer modo, o nosso personagem não poderá ser especialmente um sentimental nem um cínico. Nem piegas, nem cruel. Sua força, como a da mulher, há de residir na própria banalidade. Deve comunicar ao espectador o sentimento de que ele não é alguém que está fazendo alguma coisa, mas alguém que está apenas diante de uma situação inevitável. “A força das circunstâncias” – não há lugar-comum mais odioso nem mais verdadeiro.
Pois, na verdade, o homem não precisa ser bom nem mau. É o amor que é divino e diabólico; a delicadeza mais leve e a brutalidade mais estúpida nascem do próprio amor com uma espantosa fatalidade. Os grandes orgulhosos o mais que podem fazer é calar no momento de abandonar ou de ser abandonado. Mas o silêncio é um ouro falso; o silêncio em si mesmo é falso; nem mesmo o silêncio definitivo, o suicídio, tem mais força do que a expressão de um gesto de momento.
A outra voz terá de refletir o subinferno da inquietação e do remorso que ameaça envenenar um novo romance. Perder o amor da pessoa amada e perder o amor à pessoa amada, tudo são perdas da vida, que se amesquinha e lá se vai gastando, e se fazendo amarga.