Enquanto não terminar…Enquanto não terminar a construção aqui ao lado, não me considero cem por cento responsável pelos meus atos e desatinos.

Se há mais trabalho em se fazer um edifício, há maior carga de neurastenia em se ouvir o crescimento de um edifício. Os operários sofrem, e eu compreendo a pena deles; Karl Marx compreendeu a pena deles; hoje o mundo quase inteiro compreende a pena deles. Mas não há filosofia, a não ser na Ásia, que se condoa das vítimas do barulho. Não há plataforma política que estabeleça uma ampla organização do silêncio. O silêncio não é uma reivindicação levada a sério e, por isso mesmo, eu sou às vezes um homem triste e desajustado.

O inferno, se existe, deve ser uma zoada ininterrupta e infernal. Com o calor e a falta de tudo, o inferno não pode ser muito diferente do Rio.

É pelo ouvido que o homem recebe muitos de seus males mais violentos, a intriga, a palavra áspera, a buzina, o insulto, a verdade crua, a martelada, as negativas às nossas ambições amorosas e bancárias, a serra circular, o mau conselho, as bombas juninas, etc., etc…

Esse mecanismo delicado, feito de orelha e ouvido, é na verdade o órgão mais enganado em nosso jogo de enganos com a vida: gosta de elogios e recebe restrições; ama palavras de amor e carinho e escuta palavrões; deleita-se com as melodias e ouve a gestação brutal dos prédios de apartamento; consola-se com os ruídos mansos da natureza e se afoga na algazarra da cidade, onde, mais que o pássaro, ouvimos o grito dos homens, mais que o vento, ouvimos o rádio do vizinho, mais que o balir das ovelhas, ouvimos o urro dos automóveis, mais que o mar praiando docemente, ouvimos o desconcerto urbano.

Enfim, essa construção ao lado me põe louco... E não chego a sentir consolação no silêncio da morte.

***

Amigo nos contou: 

“O irmão de minha empregada teve uma rixa e matou um homem e aguarda julgamento na prisão; hoje, ao voltar de uma visita ao preso, ela me disse ⏤ com toda a naturalidade − que o irmão lhe pediu para não lhe levarem mais comida de sal PORQUE NA CADEIA NÃO HÁ ÁGUA NEM PARA BEBER”.

paulo-mendes-campos
As crônicas aqui reproduzidas podem veicular representações negativas e estereótipos da época em que foram escritas. Acreditamos, no entanto, na importância de publicá-las: por retratarem o comportamento e os costumes de outro tempo, contribuem para o relevante debate em torno de inclusão social e diversidade.
x
- +