Escrever à noite tornou-se um sacrifício para mim, desde que deixei o casarão paterno. A suspeita de molestar os vizinhos me aperta a cabeça, como uma cinta de ferro, impedindo a coordenação mais simples das frases, as mãos falhando no teclado.

Morei em um apartamento térreo, no Leblon, que era uma esplêndida caixa acústica. Um cego, se gostasse de escutar a vida alheia, poderia se informar perfeitamente do que se passava nas seis residências do prédio. Ouvia-se tudo através das paredes, arrufos familiares, conciliações carinhosas, serões, visitas, festas, telefonemas, e até o sono dos moradores era audível na calada.

Naturalmente, nesse apartamento, meu desagrado de escrever durante a noite era mais vivo. Mas depois de pouco tempo, descobri que exatamente o meu vizinho de cima era escritor, e que não alimentava escrúpulos com o estrondo que fazia a sua Remington antiga (juro que era uma dessas Remington enormes, só encontráveis nos escritórios das lojas de tecido por atacado na rua da Alfândega).

Era um sujeito magro, feio, de cara inexpressiva, barbicha ruiva, mistura meio infeliz de D. H. Lawrence e do Lóia, um dos funcionários da contabilidade deste jornal.

Talvez fosse até um literato bastante conhecido, mas nunca me dei ao trabalho de sabê-lo. Sei, pelas diversas cadências de sua Remington, é que praticava todos os gêneros literários, a poesia, o romance, o conto, o diário íntimo, a página solta, esta com a pretensão evidente de ser antológica. Não descobri de saída esses pormenores mas esperdicei tempo e paciência para conhecê-los.

Em verso ou em prosa, o homem era um torturado da forma. Não que escrevesse catando as teclas como galinha no milho.... Não, tinha curso de datilógrafo e a frase rápida. Mas, depois de três ou quatro períodos bem pipocados, longos como os de Proust, e duros como os do senhor Cláudio de Souza, o rolo fazia o papel voltar ao início, para o trabalho penoso e nobre do estilo. A máquina riscava de xizes uma palavra, e a casa era devolvida ao silêncio, o silêncio da vida se formando no interior da terra, o silêncio de quando o espírito de Deus era levado sobre a face das águas, o silêncio que pairava como uma auréola sobre a cabeça de Flaubert, em uma palavra, o augusto silêncio da Forma.

Pobre escritor de jornal, obrigado a enramar minhas palavras como Deus é servido, eu respeitava simbolicamente aquelas pausas que buscavam a expressão bela, meu preito de louvor à luta pela arte, ao mesmo tempo que procurava aproveitá-las para ver se dormia.

Inútil, não dormia. O barbicha encontrava a palavra exata, o diamante único, e retornava animadamente ao fio da história.

O diário íntimo era batido com discrição, em surdina. Se alguém se aproximava, o papel era violentamente arrancado da máquina, ouvindo-se em seguida o ruído de uma gaveta que se fecha.

Quanto à poesia, ele preferia os ritmos curtos, populares, a redondilha, maior e menor, de fundo meio brejeiro (desconfio), o que não ficava bem com a cara austera do autor, mas que se justifica pelas fantasias e liberdades que pode tomar um espírito criador.

Às vezes, eu também era compelido a escrever, e, então, o Leblon era transformado em um campo de batalha, com duas frentes, à maneira da guerra de 14 ou da nossa revolução de 30.

Nossos estilos não coincidiam, não coincidia o nosso gênero, não coincidiam as nossas máquinas de escrever. O estilo dele era grandiloquente e comprido; o meu é rasteiro e curto. O gênero dele era o romance e a poesia; o meu é esse mesmo que os leitores veem. A máquina dele era uma metralhadora pesada; a minha apenas um pobre fuzil de repetição. Nem mesmo lutávamos sob bandeiras parecidas: ele em nome de um ideal ― a beleza ― eu por necessidade. Ele era um paladino, um cruzado; eu, um mercenário, a soldo módico.

Mas lutávamos. À rajada de sua metralhadora ― tatatatatatatatata ― eu respondia fracamente, mas com denodo tetetetetetetetete. E nesse combate insone costumávamos matraquear até que os dedos cor de rosa da aurora nos tocassem.

paulo-mendes-campos
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