Olívio Montenegro, paraibano, com banca de crítico literário em Recife, é, em uma dicção bastante embrulhada, um dos sujeitos espirituosos desse país. Frequentemente briga com os melhores amigos e os desacata. Como aconteceu, recentemente, com Antiógenes Chaves.

Estava Olívio na casa magnífica de Antiógenes, em Recife, ambos traçavam uma bebidinha e discutiam sobre o Brasil. A certa altura, Olívio foi ficando vermelho e furioso com o ponto de vista de Antiógenes, levantando-se logo em seguida.

― Não converso com quem diz uma tolice dessa. 

Antiógenes sorriu. 

― Me dá meu chapéu. 

Antiógenes deu-lhe o chapéu.

― Nunca mais ponho os pés nesta casa. 

Antiógenes sorriu.

― E outra coisa: quero a conta de todos os uísques que bebi nesta casa durante 15 anos.

― Vou lhe mandar a conta. ― disse o anfitrião.

― Não quero dever nada a você. ― confirmou Olívio.

― Então ― disse Antiógenes ― vou mandar-lhe também a conta dos jantares... 

― Mande, mande! ― gritou Olívio, já a essa altura saindo aos trancos pela porta da rua.

― No portão, virou-se para trás e berrou para Antiógenes, que o olhava da varanda.

― Mande a conta da luz também! 

*

J. P., vindo de Minas, conta a história de duas lavadeiras que caminharam três quilômetros ao sol até encontrar a fonte de lavar roupa.

― Chi Teresa, ‘tou com uma saudade de homem!

― Coisa esquisita, Maria, eu também ‘tou. 

― Será andaço, Teresa?

*

Otto Lara Rezende seguia em seu carro pela avenida Beira Mar, depois do trabalho, quando percebeu à sua frente, em um fabuloso Cadillac, dirigido por um chofer empertigado, a figura de um homem gordo, espapaçado no banco de trás, lendo na página esportiva de O Radical uma reportagem sobre Flávio Costa, bem visível por causa das letras enormes da manchete.

Gente imbecil – pensou Otto – são esses sujeitos de negócio. Esse gordalhão ganhou dinheiro o dia todo, fez negociatas, passou a perna nos outros, e agora não encontra nada de mais espiritual do que ler bobagens sobre futebol. A antipatia gratuita aumentou quando o homem, displicentemente, jogou fora o jornal pela janela no carro. Então Otto Lara Rezende acelerou seu carro para ver a cara daquele comerciante analfabeto e vulgar. Era o Schmidt, o Augusto Frederico Schmidt.compor

paulo-mendes-campos
As crônicas aqui reproduzidas podem veicular representações negativas e estereótipos da época em que foram escritas. Acreditamos, no entanto, na importância de publicá-las: por retratarem o comportamento e os costumes de outro tempo, contribuem para o relevante debate em torno de inclusão social e diversidade.
x
- +