Deixamos o noturno à meia-noite. O homenzinho deu-me um quarto com uma janela para o mar. Absurdo, porque estávamos no interior de Minas, na mediterrânea e alta cidade de Barbacena. Mas, já disse João Artur, não se pode ser sério quando se tem 17 anos. Tinha mais, uns 20. Os outros (éramos uma dúzia) andavam também por essa idade, que é o doce-amargo subúrbio da adolescência.

Íamos visitar o escritor francês. Mas no dia seguinte, no domingo de manhã, os barbacenenses usavam roupas claras e não sabiam indicar o caminho de Cruz das Almas. Bernanos? Não conheciam. Escritor? O escritor local era um poeta lúgubre chamado Honório. Estávamos perdidos na tranquilidade dominical.

Alguém então lembrou que o escritor costumava escrever em cafés. Para não perder a medida exata da mágoa humana. Com o risco de passar por um bêbado, o que ele seria, talvez, se as autoridades alfandegárias não taxassem tão alto os alcoóis consoladores, ele mesmo o disse.

A perplexidade do taberneiro foi a mesma. Mas o único freguês da casa — que bebia a sua cerveja matinal — teve uma ideia. Não estaríamos procurando o “francês”? É isso mesmo. Um sujeito manco? Exatamente. O taberneiro se arrependeu de sua falta de sagacidade, e compartilhou também da glória de saber. Ora, “seu Jorge”! Vinha muito ao bar. Ainda há poucos dias, tinha descido bengaladas em um rapaz que implicara com ele e o chamara de nazista.

E seguimos de táxi pelo caminho esburacado e árido de Cruz das Almas. Foi a senhora do escritor que nos recebeu. Georges Bernanos estava là bas, ouvindo o sacrifício da missa.

Entramos na casa simples e limpa como um convento. Sobre a escrivaninha quase preta, havia uma Bíblia, um dicionário francês e Os sertões. Da parede, pendia a Cruz de Lorena.

Bernanos entrou com seus olhos que faiscavam como água inquieta à luz do sol. Mostrava-se alegre, jovial. Pessoalmente, o sarcasmo duro de seus escritos transformava-se em verve e ironia. Mas madame Bernanos não tinha o hábito do sorriso, ou o perdera. Fumava incessantemente, como de resto toda a família, e falava nervosamente na guerra. 

Durante o almoço, brincou-se.

Le chien attend la viande — disse Magela, que até então permanecera calado, com uma pronúncia de bom aluno.

A sobremesa era invenção do romancista — e ele o confessou com orgulho. Dentro de um tacho enorme, bananas partidas mergulhadas em cachaça.

Depois do almoço, houve a tarde. Bernanos falando, rindo, faiscando. Queriam explorar politicamente a briga a que se referira o dono do botequim. Seu entusiasmo por Euclides da Cunha. Sua reconciliação com Jacques Maritain, que lhe escrevera para perguntar como ele encontrara aquela beleza de título: Le Chemin de la Croix-des-Âmes.

Seu monarquismo: “Ainda sou monárquico, mas se fosse preciso, hoje em dia, eu me levantar desta cadeira e ir até aquela porta para restaurar a monarquia, ficaria aqui sentado”.

Leu-nos também a sua última colaboração para O Jornal, um artigo polêmico contra Otto Maria Carpeaux. Interrompia a leitura para rir-se de suas próprias maldades.

Saímos à boca da noite. Bernanos nos seguiu em seu cavalo ruço até as proximidades de Barbacena. Sentia falta de amigos para conversar. Não podemos calcular de quanto lhe valera a nossa visita. Despediu-se e voltou.

Uma hora depois, estávamos conversando no saguão do pequeno hotel, quando o cavalo ruço enfiou a cabeça pela janela. O escritor sorriu como se pedisse desculpas:

— Vou ficar com vocês mais um pouco. Quando cheguei em casa, senti-me insuportavelmente sozinho.

paulo-mendes-campos
As crônicas aqui reproduzidas podem veicular representações negativas e estereótipos da época em que foram escritas. Acreditamos, no entanto, na importância de publicá-las: por retratarem o comportamento e os costumes de outro tempo, contribuem para o relevante debate em torno de inclusão social e diversidade.
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