Nosso amigo Américo é patriota em várias línguas e em várias pátrias. Naqueles meses espantosos de 1939, Américo sofreu em sua própria pele a selvagem horda germânica que invadiu aos pontapés os campos de França. Preso a seus deveres, à sua família, à sua idade, ele nada podia fazer. Salvo uma coisa: cantar. Cantar indomitamente a Marselhesa, em francês, com raiva, bem alto, sem temor de ouvidos nazifascistas. Naturalmente, essa exibição artístico-patriótica era realizada no banheiro, que se trata de rapaz ocupado o dia inteiro.

Bem, um dia, Américo é procurado em seu apartamento por uma lourinha, pequenininha, olhos azuis, rosto anguloso, dessas que aparecem em fita francesa.

De fato, a moça era francesa. Américo, com uma toalha amarrada à cintura, não sabe que atitude tomar diante da figurinha graciosa que está à sua porta. Mas a jovem, toda natural, toda educação de sua terra, vai dizendo logo a que vem. Era a vizinha do lado. Chegara ao Rio quando menina. Ele que compreendesse. Ela também muito sofria com os soldados de Hitler dentro de sua pátria. C’était horrible! De créver le coeur! Mas acontecia que o pai dela era um velho, de quase 80 anos, condecorado por ato de bravura nas trincheiras da guerra de “catórze”. Coitado, era um bravo, um patriota, um francês cem por cento. E sofria do coração, pressão altíssima. Ora, ela, boa filha, procurava esconder do pai a debacle do exército francês, velando por seu coração, já exausto de bater pela liberdade, pela igualdade e pela fraternidade. Mas quando Américo se punha a cantar a Marselhesa (oh, ela sabia reconhecer essa solidariedade brasileira), o infeliz velho se levantava da cadeira em um estado de exaltação que o punha em perigo de vida. Não havia como contê-lo nesses momentos.

O que ela queria era pouco: apenas que Américo não cantasse mais a Marselhesa. 

Evidentemente, nosso cordial Américo compreendeu a extensão do drama que involuntariamente estava causando, drama esse paralelo ao drama do mundo, e assegurou à gentil senhorita que de sua boca jamais sairiam as palavras sagradas: “Allons enfants de la patrie…”

Promessas, promessas, de que valeis! Sim, durante algum tempo, ele conseguiu sofrear a sua ira e tomar banho em silêncio. Mas veio o dia da desgraça maior, inacreditável, o dia para sempre escuro na história, em que Paris, a cidade luz, o berço da civilização, caiu sob as botas dos bárbaros. Ah, nesse dia Américo estava pálido e impávido. E foi cantando a Marselhesa, vibrantemente, indomavelmente, que marchou para o banheiro.

No dia seguinte, chegou ao seu conhecimento a notícia de que o velho havia morrido de um ataque do coração. 

 

P.S.: Os fatos e os personagens dessa narrativa são absolutamente reais. Foi o próprio Américo que me contou esse acontecimento histórico.

paulo-mendes-campos
As crônicas aqui reproduzidas podem veicular representações negativas e estereótipos da época em que foram escritas. Acreditamos, no entanto, na importância de publicá-las: por retratarem o comportamento e os costumes de outro tempo, contribuem para o relevante debate em torno de inclusão social e diversidade.
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