Ao receber ordem de embarcar, o rapaz começou a procurar por todos os bolsos a sua ficha de identificação. Suava, coitado. A ficha não estava em bolso algum, não se metera entre as dobras de um papel, não estava nem mesmo no sapato.

O moço dirigiu-se ao guichê, explicou que tinha perdido a ficha ao funcionário, pediu outra. O funcionário, sem levantar os olhos, disse, apenas: “Pode seguir que daqui até o avião o senhor há de achar a ficha”. Nova insistência do passageiro, e a mesma fria e categórica resposta do funcionário. Então, o rapaz foi andando, rebuscando pela décima vez os bolsos, pálido e com raiva. Até que do fundo de um bolso da calça, já tantas vezes pesquisado, surgiu a ficha redentora. O que é a experiência! – pensou. E sorriu.

*

Não podemos deixar de sentir um pico de ironia naquele “Boa Viagem” dos aeroportos. Porque, em avião, é boa a viagem que chega ao seu destino.

*

Alguém uma vez perguntou a um piloto de avião internacional:

— Só por um acaso, com o desenvolvimento da aviação atual, um bicho desses cairia, não é verdade?

A resposta o deixou indeciso. Disse o piloto:

— Bem, não é propriamente isso. Há uma concorrência de acasos que mantêm o aparelho no ar e o impulsionam para frente, isto é, a lei da gravidade, a resistência do vento, o motor de explosão, a propulsão da hélice, etc. 

A verdade é a seguinte: se faltar um desses acasos, o avião cai.

*

Rude e primário bom senso tem um cidadão português que nos explicou os motivos pelos quais não viajava de avião:

— Primeiro: o motor se chama de explosão; segundo: basta dar uma olhadela naquelas asas trêmulas para se verificar que aquilo não é uma coisa resistente; terceiro: o piloto é um homem como qualquer outro, estando sujeito a, por exemplo, uma síncope fatal; quarto: Deus não deu ao homem o direito de voar, porque se o houvesse feito, teria lhe fornecido um par de asas.

A isso, ele denominava os fatores frágeis da aviação.

paulo-mendes-campos
As crônicas aqui reproduzidas podem veicular representações negativas e estereótipos da época em que foram escritas. Acreditamos, no entanto, na importância de publicá-las: por retratarem o comportamento e os costumes de outro tempo, contribuem para o relevante debate em torno de inclusão social e diversidade.
x
- +