Não me lembro o ano, mas eu era ainda menino quando se realizou pela primeira vez em Belo Horizonte uma corrida de longa distância, em uma noite de São João perdida no tempo. Tirante o futebol, ainda não se praticavam a sério em Minas outros esportes. A inocência esportiva de todos era angélica, absoluta.

Os jornais noticiaram os preparativos da corrida com entusiasmo. Faixas brancas postas nas ruas, referências à grande noite feitas na rádio com voz calorosa, acabaram comunicando ao público um interesse pela corrida que superou, como se viu depois, todos os prognósticos. Os corredores se inscreviam aos magotes. Sobre todos eles os noticiaristas de esporte escreviam adjetivos generosíssimos, às grandes esperanças das pistas nacionais, como se fossem todos experimentados atletas. As opiniões se dividiam e discutiam nas ruas e nos cafés. Proezas fabulosas eram inventadas pelos repentinos torcedores, ansiosos de provar que esse ou aquele candidato era um monstro para correr. Altas horas da noite um tropel no asfalto sobressaltava de emoção os moradores: eram os atletas mineiros, muito graves, muito cônscios do dever, exercitando-se, em calção e sapato de tênis, para a incomparável noitada.

Quando se aproximava o dia da contenda, a maioria do público já havia escolhido, coisa infalível, um favorito: o cabo Modesto, do regimento de cavalaria da polícia. Não porque o cabo já houvesse vencido, ou mesmo disputado, outras provas no gênero; não porque houvesse revelado aptidões excepcionais nos treinos. Os resultados dos treinos chegavam truncados à população, envoltos em fantasias, mentiras. Mas cabo Modesto tinha uma compleição taurina, peitos largos, bíceps de estivador. Cabo Modesto era um craque na barra e na paralela do quartel. Um soco de cabo Modesto era um tiro.

Os jornais estampavam retratos do militar em poses de lutador. Nós, meninos, procurávamos vê-lo de perto e nos certificarmos definitivamente que a corrida iria ser uma sopa (ainda não se dizia barbada) para ele.

Por fim, chegou a noite da Corrida da Fogueira, como a batizaram, as ruas apinhadas, muita confusão, cordões de isolamento agravando os atropelos, alto-falantes prometendo narrar exaltadamente todos os pormenores do acontecimento.

Depois de muito atraso gasto em emoção, foi dada a saída. Cento e tantos corredores passaram por nós em disparada, dispostos a fazer a volta em Belo Horizonte, dezenas de quilômetros, não me recordo mais quantos.

Um grito veemente irrompeu da multidão: “Modesto! Modesto!”.

E, efetivamente, cabo Modesto passou por nós zunindo, pôs logo uns trezentos metros na frente do segundo colocado, desapareceu na primeira curva do percurso e continuou zunindo, conforme atestavam os comunicados transmitidos ao locutor da rádio. “Cabo Modesto, senhores ouvintes, cumprindo uma performance i-na-cre-di-tá-vel, in-crí-ve-l! Seis quarteirões de diferença entre o cabo Modesto e o segundo colocado! Pasmem, senhores ouvintes: cabo Modesto não dá nenhum sinal de fadiga: está subindo a avenida João Pinheiro com a velocidade de um campeão! Cabo Modesto acaba de entrar na praça da Liberdade. 12 quarteirões de diferença para o segundo colocado! Cabo Modesto vai bater seguramente o recorde brasileiro, quiçá da América do Sul! I-na-cre-di-tá-vel! Atenção, senhores ouvintes: cabo Modesto caiu repentinamente sobre a pista e não se levantou mais. Alguma coisa aconteceu, senhores ouvintes, no justo momento em que cabo Modesto já não deixava dúvidas sobre a sua vitória em um tempo digno do melhor corredor internacional. Aguardem por alguns minutos, senhores ouvintes, que vamos saber o que aconteceu ao grande atleta de Minas para o Brasil”.

Cabo Modesto estava morto.

paulo-mendes-campos
As crônicas aqui reproduzidas podem veicular representações negativas e estereótipos da época em que foram escritas. Acreditamos, no entanto, na importância de publicá-las: por retratarem o comportamento e os costumes de outro tempo, contribuem para o relevante debate em torno de inclusão social e diversidade.
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