O jovem repórter Carlos de Oliveira, que ainda está longe de atingir a maioridade civil, envia-nos através do jornalista Pedro Gomes, papel timbrado da revista Manchete, uma carta confortadora para a tarde de terça-feira. Confortadora, disse eu, porque traz matéria assaz curiosa, dispensando-me a tarefa de escrever. Copio:

“Rio, 26 de novembro de 1953…

Sr. P.M.C.,

Creio que vale a pena contar isto em seu “Primeiro Plano”. Eu estava estendido sobre a areia, na suja e fina faixa da praia do Flamengo. Eram nove horas, havia muita gente, senhoras, crianças, marmanjos, quando chegou o dono da praia. Não sei se se trata de um doido ou simplesmente de um gozador: mas, de qualquer forma, o pouco espanto dos banhistas diante de seus gritos demonstra que ele é uma figura popular ali.

Foi chegando, gordinho, baixote, mulato, de camiseta e calção de brim azul, touca rubro-negra na cabeça e tamancos, e gritando:

– Chegou o dono da praia! Vamos caindo fora. Isto aqui é praia particular.

Alguns riram; as crianças olharam, medrosas. Ele apontou para uma crioula de maiô escandalosamente estampado.

– Os negros só podem tomar banho até seis horas. Acho bom ir caindo fora.

Fez uma breve ginástica; depois: 

– Atenção, regulamento da praia! É proibido tomar banho de óculos. Ninguém pode enxergar mais do que os outros.

E, tendo contemplado num longo e doce olhar certa senhorita bronzeada, baixou o tom de voz, açucarou as palavras:

– Que coisa, hem? Parece feita de trigo. Parece um biscoitinho de araruta. Pronto, podem tomar banho à vontade. Não fiscalizo mais nada…

Sentou-se numa pedra. Iam saindo dois rapazes.

– Podem entrar mais dois, disse ele. Saíram dois, entram mais dois, e chega.

Para aquela senhora branquela e encanecida que olhava o mar:

– Esta praia foi feita pelo Degas. É só pra mim tomar banho, mas já apareceram mais de 200.

E rapidamente, em direção aos “bonitões” debruçados no muro de pedra:

– Ficam todos aí, com essas caras bonitas, não é? Isto aqui é praia de família, vagabundos.

As crianças pulam de alegria vendo um grande barco que passa paralelo à praia; há cerca de 14 rapazes remando. O dono da praia levanta-se, excitadíssimo, e põe-se a gritar na direção deles:

– Hei, seus piratas! Estão me ouvindo? Não venham roubar nossas mulheres, não, tá bom? Vão ancorar lá pra baixo, aqui não, nossas mulheres são nossas, e não de vocês. É bom ir pra bem longe, hein, piratas.

O barco continua em movimento, afastando-se. O dono da praia, vitorioso:

– Viram? 15 homens com medo de um só. Se eles saltassem aqui, vocês iam ver.

Cala-se durante vários minutos. Depois entra n’água. Mergulha, nada. E lá de baixo, no mesmo tom forte e convicto:

– Achei o pé de um menino! De quem é este pé? Olá, menino, você aí. Vem buscar teu pé.

Se alguém duvidar do que conto, vá à praia do Flamengo.

Atenciosamente, Carlos de Oliveira”.

Pela fidelidade da cópia,

P.M.C

paulo-mendes-campos
As crônicas aqui reproduzidas podem veicular representações negativas e estereótipos da época em que foram escritas. Acreditamos, no entanto, na importância de publicá-las: por retratarem o comportamento e os costumes de outro tempo, contribuem para o relevante debate em torno de inclusão social e diversidade.
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