Anteontem, em um avião de Belo Horizonte para o Rio: uma senhora sentada ao lado do filho de 12 anos, ele com os olhos abertos de alegria infantil, ela com os olhos esbugalhados de pânico. Tempo instável, sujeito a chuvas.

Quando o aparelho entrou no espesso nevoeiro, a mãe tirou da bolsa dois poderosos terços, estendeu um ao garoto, passando imediatamente a desfiar o outro. 

– Basta um, mãe – diz o menino com preguiça.

– Não, menino, você reza pelo motor direito, que eu rezo pelo esquerdo.

– Não quero rezar, não, mãe. 

Ela tomou um olhar severo:

– Você reza ou vai ficar uma semana sem ir ao cinema. 

O garoto começou a rezar o terço. Com uma raiva.

*

Em Belo Horizonte, no tempo do governo passado, inaugurou-se uma coisa qualquer com a presença do governador Milton Campos. Depois de cortada a fita, ouviu-se um vibrante “peço a palavra”. Houve espanto, porque quem a pedira era um conhecido militante do P.S.D., que de há muito procurava uma aproximação com o novo governo. E veio o discurso, que iniciou assim:

Exmo. sr. Bê-bê-bê-bê-bê.... Milton Campos.

*

Do tempo do milagroso Padre Antônio, de Araucânia, é o episódio que nos contam: na igreja repleta, era o dia em que o sacerdote ia dar uma bênção especial aos alcoólatras que desejavam curar-se por intervenção divina. O padre aparece na igreja e faz um aviso ao público, com sua voz fraca:

– Os que querem deixar de beber, passem para o lado direito.

Os pinguços todos, cabeça baixa e olhos injetados, obedeceram. No meio deles, causando estranheza geral, uma conhecida e rica dama mineira, casada com um ainda mais conhecido homem público, casal sem filhos.

Eles haviam entendido:

– Os que querem arranjar um bebê.

*

Na passagem do ano, ainda em Belo Horizonte, o jornalista Cid Rebelo Horta provou apenas a bebida e depositou seu cálice na mesa.

– Bebe, meu filho, diz o seu pai, de mais de 70 anos.

– Não posso. Se eu beber, amanhã o fígado vai dar o estrilo.

E o homem, de uma cepa que não há mais, depois de emborcar metade do seu uísque:

– Não se incomode com isso não, meu filho. Quando você ficar velho, seu fígado melhora.

paulo-mendes-campos
As crônicas aqui reproduzidas podem veicular representações negativas e estereótipos da época em que foram escritas. Acreditamos, no entanto, na importância de publicá-las: por retratarem o comportamento e os costumes de outro tempo, contribuem para o relevante debate em torno de inclusão social e diversidade.
x
- +