A gente está sempre a fazer planos de se dedicar a certos assuntos sem injunções de tempo e quantas vezes não acaba por inutilizá-los nos suplementos literários. O que se publica nos suplementos não é ruim por definição, mas é apressado e leve por natureza, salvo no caso dos colaboradores eventuais que só de raro em raro frequentam a literatura dominical, e brilham de maneira injusta e humilhante para nós os periódicos. Não posso afiançar se o temperamento desses periódicos é uniforme. Se for, sei que eles se esforçam para conservar intactos não apenas os próprios temas, como até mesmo a própria maneira de escrever em caráter definitivo. Escamoteiam os temas preferidos e o estilo, como se se desdobrassem numa personalidade literária menos ambiciosa, mais superficial e desinteressada. O que não vai para os suplementos, fica para a “nossa obra” e a “nossa obra” é sempre qualquer coisa de muito séria, que pode acontecer ou não acontecer, mas que, em todo caso, não deve sujeitar-se às deformações decorrentes de nossa pressa, de nossos contratempos, de nossas mágoas absorventes e nefastos amores.

A gente não devia, mas trai os assuntos queridos, assuntos que, pela própria paixão que nos despertam, estão a reclamar muita calma e fidelidade. Para mim, Mário de Andrade é desses, e, traindo-o hoje nestas colunas, estou também a trair a mim mesmo, que minha vaidade anterior seria falar serena e criteriosamente sobre ele.

Não domino de todo Mário de Andrade, nem a obra, nem o homem. E certo, e justamente por muito prezá-lo como solicitação intelectual, não me contento de ficar entre os que o admiram sem estudá-lo. Por minha parte, entretanto, ainda não consegui compreendê-lo a um ponto que me satisfizesse e correspondesse à sua natural sedução.

Em geral, fala-se sobre Mário de Andrade com um carinho que não se pode adjetivar de excessivo, mas que se qualificaria bem de ingênuo. Seus amigos transformaram-no numa espécie de “monstro sagrado” e exercem sobre sua memória uma polícia tirânica e afetiva, muito explicável não só pelas qualidades pessoais do autor de Macunaíma, como também por seus defeitos, porque, na verdade, em artigos e cartas, no que pese por outro lado suas singulares injustiças, nunca se elogiou tanto no Brasil como o fez Mário de Andrade. Sua crítica literária foi simultaneamente profunda e leviana e desconfio que ele se comprazia muito em se mostrar inteligentíssimo ao mesmo tempo que irrefletido, assim com um ar meio songa-monga de quem não entende nada da vida. Tenho reparado muitas vezes no sorriso hábil de pessoas por qualquer motivo desobrigadas do culto a Mário de Andrade. É um sorriso que diz: a obra de Mário de Andrade não é o que vocês pensam (os amigos).

Porém, que pensamos sobre ela? Muito pouco, quase nada. Nós, amigos, inimigos, indiferentes, não podemos possuir até agora o orgulho de formar um “pensamento” acerca do que deixou Mário de Andrade. Aqui ou ali, incidentemente encontramos juízos críticos fragmentados, atinentes a alguns aspectos de sua criação. Como literatura que somos, entretanto, todo o conjunto de conceitos que possamos reunir sobre a obra de Mário de Andrade não chega a ser um considerável patrimônio de compreensão crítica. Não temos o vivificante hábito da crítica e somente agora, em torno de uma figura já tão longínqua como Machado de Assis, é que começamos a acumular alguma riqueza intelectual. Não me refiro à crítica chamada profissional, mas, pelo contrário, à crítica geral, traduzida na soma de depoimentos a respeito de um nome importante qualquer de nossa vida literária. Entre nós, esse depoimento é quase sempre efetivo e laudatório, quando muito anedótico, voltado para o homem, alheio à obra que ele fez.

Personalidade complexa, tudo que Mário de Andrade escreveu tem um timbre e é curioso. Seus trabalhos todos são justamente o contrário das coisas incaracterísticas. Ele os marcava infalivelmente com sua unha de escritor de raça. Acredito mesmo que o estudo dessa “marca” seja o mais importante na obra de Mário de Andrade, porquanto conhecê-la com lucidez seria dispor dos elementos essenciais sobre os quais ela se edificou. Mário romancista, Mário poeta, Mário crítico, Mário contista, não chegam a superar, cada um isolado, uma personalidade mais forte do que os assuntos e os gêneros a que ele só entregava: Mário de Andrade escritor. O que importa de maneira excepcional nele é o homem de letras, o literato com a sua linguagem, com suas virtudes estilísticas, com seu mecanismo de pensar, com seus caprichos, com seus cacoetes. Ele refugou várias vezes diante das tentações da literatura, surpreendendo-a egoísta e distante dos homens comuns. Havia em Mário de Andrade um espírito que procurava gozar sensualmente o prazer da inteligência e da expressão verbal e lutou contra esse demônio que lhe pareceu desumano e frio. Venceu ? Não, perdeu. Sua obra é tudo que há de mais virtuosístico na literatura brasileira, ela constitui o roteiro de uma alma incapaz de desviar-se dos caminhos que levam à auto-satisfação do espírito em si mesmo. Tudo que ele escrevia era caprichoso e coleante, guiado por uma inteligência esportiva e fantasista, embora tenha sido sua perene preocupação enganar a si mesmo, acreditar que ele dirigia seu pensamento, suas ideias, seu conceito sobre isso ou aquilo. Procurou, então, recolher-se em assuntos cuja própria natureza impunha objetividade e esquecimento de si mesmo. Meteu-se, assim, na torrente do pensamento social, procurou discutir as normas que dizem respeito ao destino da humanidade, passou a proclamar profusamente que lhe interessava o homem e não a literatura. É impossível, porém, encontrar um único trabalho de Mário de Andrade que não esteja impregnado de gratuidade mental, mais do que gratuidade, de sensualidade mental como dissemos acima.

Não discuto o mérito de seu esforço no sentido de derrotar-se. Não distingo igualmente até onde vai a sua virtude em ser o vencido e onde começa a sua culpa. Limito-me a comprovar, por um lado, que foi Mário de Andrade um falso mestre para o homem, e, por outro lado, que foi um mestre de literatura, um espírito singularmente bem dotado, uma vontade paciente e tenaz, uma inteligência de múltiplos recursos, uma sensibilidade de extrema elegância.

Perdi-me bastante. Meu intuito é registrar a primeira impressão que tive da leitura de Lira paulistana, os últimos poemas de Mário de Andrade. Conforme afirmei, se me interessa nele antes de tudo, o escritor, logo em segundo plano, seduz-me o poeta. Não desde que tomei contato com sua literatura há muito tempo, entretanto, que o poeta Mário de Andrade desperta em mim uma curiosidade e uma admiração especiais. Justamente na poesia é que ele pode exercer com amplitude todas as suas qualidades naturais, permitindo-lhe o verso o exercício mais livre de seu pensamento abstrato e retorcido e de sua enfeitiçada habilidade verbal. Até mesmo os seus tiques de expressão apresentam-se mais saborosos nos poemas, porquanto, talvez, mais facilmente nos acostumemos às formas do verso do que às formas da prosa. É raro encontrar-se um poema de Mário de Andrade que não encerre qualquer virtude mais ou menos sutil, um achado, uma expressão, um maior merecimento, aliás, foi, a meu ver, ter sido um conhecedor dos recursos da poesia, um poeta consciente, sempre preocupado em dotar sua expressão dos valores perenes da poesia: imagens, metáforas, assonância, ritmo, etc. Versos como “Poemas da negra”, “Rito do irmão pequeno” e “Girassol da madrugada” constituem três peças das mais depuradas, das mais perfeitas de nossa lírica. Há muito pouca coisa em poesia brasileira na mesma altura desses três maravilhosos poemas, de um equilíbrio e de uma sabedoria vocabular capazes de comover o ouvido mais duro e menos habituado à sensibilidade da linguagem. Por outro lado, “Meditação do Tietê”, incluído em Lira paulistana, ainda que sem a harmonia e a medida exata que assinalam os melhores poemas de Mário de Andrade, tem trechos cuja prodigiosa pureza e densidade poética só encontram equivalentes no melhor Camões e no melhor Fernando Pessoa, por diversa que seja a poesia dos três. São trechos em que a palavra começa a existir, trechos em que todas as palavras funcionam e em que todos os versos trabalham na manutenção da poesia, essa coisa esquiva que se esfacela ao primeiro gesto inadvertido.

O tom dos outros poemas de Lira paulistana é bem diferente. A qualidade poética deles, porém, é quase tão excelente. Lira paulistana é uma demonstração de simplicidade, da verdadeira simplicidade que se traduz como um resultado e não como maneira de escrever. Já se disse que não há sentimentos simples e sim um modo simples de considerar os sentimentos. Da mesma forma, a rigor, existe apenas um modo simples de considerar os versos, cuja simplicidade aparente mal consegue ocultar o complexíssimo trabalho mental e até material que lhe deu oportunidade de vencer a confusão do espírito humano.

A poesia de Mário de Andrade não cabe numa crônica. Por demais confuso acabaria eu se pretendesse dar aqui uma notícia de todas as suas virtudes.

paulo-mendes-campos
As crônicas aqui reproduzidas podem veicular representações negativas e estereótipos da época em que foram escritas. Acreditamos, no entanto, na importância de publicá-las: por retratarem o comportamento e os costumes de outro tempo, contribuem para o relevante debate em torno de inclusão social e diversidade.
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