Pelo que tenho lido e ouvido, os escritores maduros não vêem com entusiasmo a jovem poesia brasileira. Negam-lhe força e originalidade, negam-lhe, antes de tudo, a existência como realidade coletiva.
É justo? Precisamos de muito discernimento. Nessas paragens, o mais provável é a tolice de todos. Estamos no âmago da monótona questão de gerações, e tanto os iniciantes como os iniciados da arte de escrever não deverão dizer muita coisa judiciosa a respeito dos valores literários e morais que os distingam. Emitir conceitos inseguros sobre a geração que nos precede ou que se segue a nós é mais do que um direito de todo literato, quase um dever. Devemos apenas advertir que, nesta matéria, o razoável é que se erre com certa lógica, com certo conhecimento, e não, como vemos em geral, erros sem lucidez, sem coisa alguma que os justifique além da tentação biológica que o escritor tem de escrever.
Quando dizem que a poesia dos moços não tem “nada de novo” o melhor que o jovem pode fazer é sorrir, sorrir um sorriso cordial e acima da vaidade dos homens. No mínimo, a poesia moça está com a razão; pode não ser melhor, mas está com a razão. Basta isto para que se continue de espírito tranquilo.
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Às vezes, o telefonema era de madrugada. Era ela. Ele não se aborrecia, embora dormir não lhe fosse coisa muito fácil. Os pés tateavam o chão em busca das chinelas. Não as encontrava. Descia, então, descalço, sem nervosismo, pacientíssimo. A lua batendo na copa punha nos cristais um brilho amarelado que o comovia, e era bela a silhueta de três mamoeiros enormes no muro do quintal. Conhecia os mínimos segredos da casa, e nunca acendia a luz. Era um noturno. Deslizava entre os móveis com a naturalidade displicente de um fantasma.
– Alô!
– Sou eu, Gumercindinho.
– Eu sabia, minha filha.
– Estou com medo.
– Espere aí, que vou ligar.
Procurava Nova York, porque Nova York era longe. Depois, meio copo de água, meio copo de uísque, acendia o cigarro, acomodava-se na poltrona, espichava as pernas com um suspiro.
– Pronto, minha filha. Quê que há?
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Muito tenho me aplicado para ser um homem relativamente agrícola, mas a verdade é que do campo eu só entendo mesmo a paisagem. Com esta convicção voltei do sítio de um amigo, onde passei um comprido fim de semana. Não sirvo para pegar cavalo no pasto, não compreendo os segredos das hortaliças, não sei como se combatem pragas da laranja. Gosto é de deitar na rede molenga vendo os urubus avoando, avoando, os bois que comem o morro quase vertical. Fico meio bobo na roça, sorumbático. Não é tristeza, é uma preguiça vegetal que me faz eficiente ao contrário, a banzar à toa. De repente, como se saísse de um túnel, dou um berro, e alguém pergunta se estou doido. Não estou não. Gritei porque é bom gritar de vez em quando, porque o eco é sempre um consolo para quem grita.
Disseram-me que detesto o campo. Pouco sutil, entretanto, foi a observação. De fato, minha atividade na roça não é produtiva, mas é uma atividade essencialmente campestre. Reparem nas minhas mãos, na minha roupa, na minha cara: estão sujas de terra, e na cidade nunca tenho oportunidade de lambuzar-me desta terra que eu gosto. Se me olhassem durante algum tempo, veriam também que de vez em quando apanho no chão uma pedra roliça e a lanço com toda força para o lado do rio. Há neste gesto três prazeres campestres para mim: o de ver se bato o meu recorde da pedrada anterior, o de ouvir a pedra fazer tibum dentro d’água, e o prazer de jogar pedra, tout court. Na cidade existe o mar, mas não há pedras. Reparem no vinho que bebo: quando teria eu coragem para beber esse veneno na cidade?.
Eu amo o campo. É preciso ter cuidado com conclusões precipitadas. Por exemplo: não faço nenhuma questão do privilégio de dar milho às galinhas, entretanto – e aqui ponho uma pausa para que pensemos no inexpugnável mistério das afinidades humanas – corro na frente de todo mundo para ser o primeiro a estender aos coelhos folhas frescas de couve-flor.
Estou me tornando medíocre? Ou amadurecendo?
Compreendo muito bem o campo; o que não entendo é o agricultor, este virtuose da solidão e das batatas.
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Conta Jean Paulhan, em um dos livros dos mais inteligentes que tenho lido sobre literatura, que no monastério de Assis vivia um monge que falava tão estropiadamente e com um acento tão engraçado que seus companheiros não podiam conter o riso ao escutá-lo. Apenas quando contava um caso excepcional o pobre monge podia abrir a boca sem provocar risadas. Entretanto, gostando de falar, sofrendo com a solidão, começou o desventurado a provocar catástrofes para ter o gosto de relatá-las, de despertar atenção e não ironia.
Se a anedota é por si pitoresca, justa é a observação do autor de Les fleurs de Tarbes: “notre littérature non plus n’exigerait pas avec tant de soir le sensationnel, si elle ne voulait nous faire oublier qu’elle est littérature, qu’use des mots et des phrases. Car il ne s’agit de rien d’autre dans son secret: ses paroles lui semblent dangereuses, et son accent odieux”.
Já se disse que não há sentimentos simples e sim, um modo simples de encarar os sentimentos. Da mesma sorte, não há estilo simples, e sim um modo simplório de considerar certo tipo de estilo.
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Só podemos conhecer e amar com certa perfeição o poema que estamos lendo. Receita para o escritor lúgubre: ler todo Dostoiewski antes dos 16 anos; preferir a noite à luz do sol; interessar-se por candelabros antigos; achar que o amor é mais profundo do que a morte: acreditar em fantasmas ou, pelo menos, temê-los; ler avidamente as seções policiais; conhecer mitologia, grafologia, quiromancia; ir a sessões espíritas; beber sinistramente; ter superstições; saber de cor o Dies Irae e vários trechos do Apocalipse: conhecer a fundo a vida dos grandes terroristas: Poe, Baudelaire, etc.; achar que todo mundo está desesperado; ridicularizar Voltaire.
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Em nosso tempo, a preguiça é a mais solitária das virtudes. Não a compreendemos mais. Hoje, o ocioso é um outlaw, um inimigo da ordem, um revolucionário particular.
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Escrever apenas três livros: o da adolescência, o da mocidade e o poema final, da morte.
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Um amigo me fez presente de um telegrama enviado de Porto Alegre por um repórter. Tratava-se da visita de Georges Duhamel àquela cidade, Reproduzo este trecho: “Ao meio-dia teve lugar o churrasco oferecido pelo governo estadual ao ilustre hóspede, que, deliciando-se com o legítimo chimarrão gaúcho, encetou agradável palestra com os convidados, demonstrando-se vivamente impressionado com o pássaro bem-te-vi.