Não sou propriamente tarado de amor pelo coronel Amilcar Dutra de Menezes. Encontro-o de ano em ano, nossa conversa é cordial: mas a cordialidade do coronel não basta para me fazer esquecer o major, que foi diretor do DIP, e que pôs este cronista, como a tantos outros, sob regime da censura prévia.

De seis crônicas que eu fazia por semana não apareciam mais que duas, ou três. E estas eram fracas e mofinas; pois a censura tem isso de odioso, e degradante, que ela acaba se instalando dentro da gente.

A única maneira certa de escrever ainda é ir dizendo o que nos dá na telha; não há melhor regra que a veneta, e se eu tivesse alguma autoridade além da longa prática, eu daria este conselho aos moços prosadores e poetas: “não digam nunca que estão com vontade de morrer quando acontece que estão com vontade é de tomar banho de mar: sejam vulgares quando se sentirem vulgares: não façam mistério das coisas simples, porque elas já são, na verdade, demasiado misteriosas; e quando, olhando pela janela, acharem que a manhã está muito bonita, escrevam exatamente assim: a manhã está muito bonita; quando estiverem indignados, escrevam com indignação”.

E aos pintores: “se acharem um pôr de sol bonito, pintem o pôr de sol; na natureza não existem cartões postais, e sim nas papelarias; se tiverem vontade de pintar dois cajus, pintem dois cajus; Cézanne nunca viu um caju em toda sua vida e provavelmente é por isso que ele nunca pintou um caju”.

Se a liberdade é coisa tão preciosa e vasqueira e delicada que mesmo dentro de nós cada um deve conquistá-la, nada me parece mais monstruoso e me repugna com mais força do que suprimi-la com a censura. Para outros isso pode ser uma questão teórica, e há quem se deleite em comparar o valor da liberdade com o da justiça ou da ordem: para quem escreve, liberdade é ar da respiração, é água de beber, é tudo.

Fiquei, portanto, mais uma vez xingando o sr. Amílcar, juntamente com todos os que neste mundo se prestam ao ignóbil papel de censor ― Eles e seus empregadores.

Mas vou chegando ao fim da crônica, e ainda não disse ao que vinha: o coronel Amilcar me fez lembrar da censura, e isso me irritou. É melhor deixar o assunto para outro dia, que este, eu já o ganhei lavando a alma: o negócio do telegrama do Acre, que ia contar, virá depois.

rubem-braga
As crônicas aqui reproduzidas podem veicular representações negativas e estereótipos da época em que foram escritas. Acreditamos, no entanto, na importância de publicá-las: por retratarem o comportamento e os costumes de outro tempo, contribuem para o relevante debate em torno de inclusão social e diversidade.
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