O fiscal da primavera

Pose com flores, Chácara Arara, Londrina-PR, c. 1950. Foto de Haruo Ohara/ Acervo Instituto Moreira Salles

Já apelidado o Sabiá da Crônica (um achado de Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta), não seria excessivo, e muito menos descabido, chamar Rubem Braga também de O Fiscal da Primavera. Credenciais por certo não lhe faltam, espalhadas numa obra tão rica quanto vasta, iniciada aos 19 anos no Diário da Tarde, de Belo Horizonte, em 1932, e só encerrada com a morte, em dezembro de 1990. 

Pense, por exemplo, na crônica “Manhã”, publicada em maio de 1952, e que, quase sete décadas depois, ainda não está em livro, como bem mereceria. 

Não estranhe que um dos assuntos do cronista seja ali a primavera, quando maio, neste canto do mundo, é outono – ou deveria ser, mas sabemos como andam bagunçadas as fronteiras entre as estações. Para o Braga, pouco importa, pois nessa curva da crônica ele está pensando no amigo Vinicius de Moraes, que dias antes tomara o rumo a Paris, onde acaba de instalar-se mais uma primavera, dessas de que só Paris é capaz. Tanto faz que aqui seja outono: “Mês de maio”, celebra o cronista, “tu és belo em toda a volta ao mundo.”

Já em “Descoberta”, de outubro de 1955, o Braga quase se penitencia pelo que julga ter sido um cochilo de sua parte. Ele vivia, àquela altura, em Santiago do Chile, nomeado pelo presidente Café Filho para um posto junto à nossa embaixada, na qual lhe cabia a obrigação nada poética de incrementar as relações comerciais do Brasil com o país andino. 

“Passei dias no escritório lendo coisas, escrevendo coisas, telefonando, providenciando, funcionando”, escusa-se ele. “E, enquanto isso, ela invadia a bela República do Chile e dançava e sorria por todos os campos, entre a cordilheira e o mar. Ela havia chegado, e eu não a vira, a primavera.” 

Um ano depois, de volta ao Brasil, já desobrigado de transações comerciais, Rubem Braga não se distraiu – e fez saber, já no título de uma crônica: “A primavera chegou”. Ali, ele acaba de lembrar-se de fragmentos de um conto lido muito antigamente, ambientado na Escandinávia, “em um daqueles países louros e frios”, com suas estações não apenas pontuais como nitidamente demarcadas. Já no Rio... Bem, “no Rio será que existe primavera?”, indaga-se o Braga, um olho no calendário e outro nos jardins e parques, dos quais, em princípio, seria legítimo esperar uma explosão de cores. “Proponho que ela exista”, sugere o cronista, e observa que “apenas o homem distraído não a vê chegar, nem a sente”, uma vez que “nossa primavera é sutil e para entrar na cidade não pede licença ao Prefeito”. 

Ele repetirá o festivo anúncio em setembro de 1980, quando lhe pareceu imperioso manter informado um amigo igualmente sensível a belezas sazonais: o poeta Vinicius de Moraes, que em julho lhe pregara má peça ao partir sem prévio aviso, e dessa vez em definitivo. Julgou-se o Braga no dever de dar a ele a “notícia grave” de que chegara a Ipanema uma nova primavera, a primeira da qual o poeta não iria participar desde 1913, o ano em que os dois nasceram. 

Aquele “Recado de primavera” (que daria título a uma de suas últimas coletâneas de crônicas, em 1984) trouxe também outras notícias. Entre elas, a de que a Rua Montenegro era agora a Vinicius de Moraes, e que ali testemunhara, na véspera, a radiosa passagem de três garotas de Ipanema, todas elas embaladas em algo que parecia ter voltado à moda, a minissaia. Diante do espetáculo, nosso atento Fiscal da Primavera sentiu-se em condições de apostar: “Acho que você aprovaria”.