Agosto morreu, mas, sejamos ou não trabalhistas, é preciso reconhecer que nunca o Rio teve um inverno tão lindo. Domingo passado quem quisesse pintar um quadro na Quinta da Boa Vista precisava da mão direita de Seurat e da canhota de Duffy. A boa gente passeava sob as árvores, visitava o Museu, via os bichos, comia pipocas, e namorava, aos pares lânguidos, na grama dourada pelo sol. 

É uma pena que fechem o Museu às 16h30; também o Jardim Zoológico devia ficar aberto até mais tarde, pelo menos a seção dos mochos e corujas e outros bichos noturnos.

Quando a tarde foi morrendo acenderam-se as luzes do parque de diversões. Aqueles casais (um dia ainda terei, Deus é grande, uma namorada de cor de rosa vinda do fundo da Zona Norte para me ajudar a ver o pavão e a girafa) então se juntaram sob as luzes e partiam na roda gigante para as estrelas, no trem misterioso para o outro mundo, na montanha russa para os abismos, no bicho da seda para o beijo com forças centrípetas e centrífugas. Vimos longamente os passarinhos, porque não havia tempo para ver tudo. Há alguns coloridos de maneira tão linda e imprevista que inventamos em voz alta a história de que o prefeito estava gastando dinheiro demais com o tal pintor japonês.

— Sabe quanto ele ganha? Trinta contos por mês!

Mas vale! Veja esse passarinho da Austrália, que delicadeza de cores. Imagine o trabalho que dá, pintar esse bichinho pena por pena. Você compreende: pegar um pardal e fazer uma saíra como aquela ali, só isso o sujeito trabalha o dia inteiro com seu pincelzinho. Além disso essa arara, por exemplo, não pode ser pintada assim: é preciso tingir cada molho de penas, como se fosse um vestido. Esse japonês é um crânio!

— Mas trinta contos por mês! Isso foi coisa do Mendes de Morais!

Em volta de nós algumas pessoas ouviam a conversa meio inquietas, olhando as aves, olhando para nós, se entreolhando. Meio crédulas, meio incrédulas. A natureza é misteriosa, mas acontece cada coisa na administração no Brasil! Mas Fernando Sabino, que é católico, achava que todos, todos aqueles bichos eram pintados mesmo por Deus.

— Então Deus é japonês, Fernando; ou japonês ou chinês.

Afinal todos concordamos em que no Ceará não tem disso não. E partimos pelas ruas erradas, passando pelo campo de São Cristóvão, onde Di Cavalcanti viveu a infância.

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