O verão chegou de verdade, fazendo mingau do asfalto; em compensação falta água no Leblon, o pão vai escurecer e o leite aguado vai aumentar de preço. Nós, os comerciários, pagaremos mais um por cento para assistência médica: mas saiu um novo livro de versos de Carlos Drummond de Andrade, o Museu de Arte Moderna do Rio vai começar a funcionar de verdade no dia 15, embaixo do Ministério da Educação, Flávio de Aquino vai para a Europa. Mário Pedrosa e outros fazem concurso para professor de História da Arte e a situação geral deve ser considerada estacionária. Entrementes o Bangu trabalhista derrotou o Fluminense pó de arroz; murmura-se que os operários do subúrbio só puderam fazer isso com apoio de um grande industrial, mas afinal de contas o trabalhismo é assim mesmo. E o Botafogo está querendo ser campeão por recurso, o que seria uma coisa tão feia que não desejamos isso nem mesmo ao Botafogo. Toma incremento a pesca submarina. As cigarras cantam com vigor desusado. Faz calor.

 

Ora, considerando que nada disto é motivo propriamente para uma crônica, o melhor seria fazer como o Vão Gogo, que vai para Caxambu escrever crônicas refrigeradas lá de cima. Afinal de contas, um país inteligente é o Paraguai, onde os funcionários públicos trabalham das seis da manhã ao meio-dia e depois vão dormir ou pescar lambari; nós somos mais estúpidos que todo o resto da América Latina, onde as horas de mais calor são horas de sesta. Até Roma, por exemplo, é uma cidade honesta, onde das uma às três ninguém faz coisa alguma. Considerando que aqui, também, o dia tem 24 horas, não seria possível inventar um horário mais decente para os funcionários, comerciários e bancários cariocas? E quando acabaremos com essa comédia sem graça de fingir que as repartições funcionam aos sábados, só para que algum papalvo se locomova para a cidade e chegue com um papel qualquer a um Ministério qualquer exclusivamente para ouvir dizer que o melhor é passar na segunda-feira? Não seria mais lógico aumentar um pouquinho o horário de cada dia para compensar essas horas do sábado? Não há, rigorosamente não há, nenhuma cidade do mundo em que o horário de trabalho seja tão inadequado ao clima como o Rio de Janeiro: das 24 horas escolhemos para trabalhar principalmente as mais quentes e desagradáveis, como se trabalhar fosse mesmo um castigo que é necessário tornar bem amargo. Proponho, meus senhores, a Campanha da Sesta; para dar exemplo, vou terminar imediatamente esta crônica excessivamente acalorada e colocar meu belo organismo dentro de uma encantadora rede de tucum. Tenham a bondade de providenciar uma leve brisa marinha. Até amanhã.

rubem-braga
As crônicas aqui reproduzidas podem veicular representações negativas e estereótipos da época em que foram escritas. Acreditamos, no entanto, na importância de publicá-las: por retratarem o comportamento e os costumes de outro tempo, contribuem para o relevante debate em torno de inclusão social e diversidade.
x
- +