Acordei, nesta manhã nublada e fria, me sentindo feliz e bom. Tive um sonho casto e meio vago, um sonho quase sem enredo, mas que me deixou na alma a saudade de um momento de beleza e perfeição.

Revi, no sonho, um retrato de Eleonora Duse que vira ontem no escritório de um amigo. Ela aparece ali aos 30 anos, com uma beleza tão suave, de tal maneira tocada pela graça interior, que pedi ao amigo aquele retrato tirado de um livro inglês. Ele não pôde me dar; mas guardei nos olhos a imagem e a revi em sonho, tão perfeita e viva que era como se visse de perto uma santa –  sacrificada pela própria beleza…

Havia mais gente, éramos um grupo; e quando a vimos, alguém perguntou quem era. Eu ia dizer seu nome; alguma coisa, entretanto, me inibia; mas ela mesma, com um leve sorriso, disse: Eleonora Duse. E foi como se, depois de ter dito o próprio nome, ela ficasse ainda mais perfeita em sua beleza.

Desci cedo para o escritório; e então chegaram duas cartas. O carteiro parece ter vindo mais cedo hoje, como se fosse urgente me trazer essas duas mensagens da fealdade e da estupidez da vida... Como se fosse preciso me castigar por ter visto em sonhos a face da Beleza.

Uma das cartas é do Rio, vem assinada por dois leitores:

“Assistíamos a uma sessão do circo quando entraram em cena três macaquinhos acompanhados de um cavalheiro. Confessamos ter sentido uma mudança qualquer no ambiente. Os bichos pareciam possuídos de pavor, fitando amedrontados o seu amestrador.

Terminado o número e quando já outro se iniciava, um ruído qualquer chamou nossa atenção para a parte dos fundos do circo, além da lona, que, em um dado trecho, estava ligeiramente erguida. E pudemos observar, alertados também pelo comentário de dois soldados de polícia, ali de serviço, uma cena revoltante que se desenrolava a poucos passos do público – um dos macaquinhos estava sendo espancado impiedosamente! No chão, de pé, trêmulo e aterrorizado, recebia pontapés e vergastadas que selvagemente lhe desferia um energúmeno – o mesmo que o apresentara pouco antes.

Depois, ainda vimos o homem agarrar o pobre bicho pela gola do casaquinho e sacudi-lo violentamente, castigando-o, supomos, por alguns erros cometidos no picadeiro”.

A outra carta é de um “médico da família Silva” que nos envia o recorte de um artigo de um colega seu que trabalha em Araçatuba. E nessa mensagem, que nos chega lá daquele fundo distante da Noroeste, não fala de pobres macaquinhos martirizados: fala de crianças.

Conta, o médico, a história de um doentinho seu, em quem diagnosticou: “pelagra; distrofia pluricarencial”.

Descreve, com uma precisão cruel, os males da criança, conta o tratamento, as melhoras depois de três dias, a morte no sexto. E aqui abandona todas as palavras difíceis para escrever apenas: “Morreu de fome”.

Esse pobre filho de gente da roça teve seu retrato e sua história em uma revista médica apenas porque escolheu, para sua fome, um pseudônimo um pouco menos banal no Brasil. O artigo desse médico do interior traz uma lista desses pseudônimos da fome, de todas essas “carências” de nosso povo, essas tristes “carências” que são em grande parte fruto de uma grande, única e terrível carência: a carência de sensibilidade, de seriedade, de amor ao povo, a carência de humanidade dos infra-homens que são os donos e senhores de nossa vida.

Leio essas cartas que falam da estupidez, da fealdade, da tristeza do mundo. Elas vêm quebrar esse vago encantamento, essa festa silenciosa e mística, essa lembrança da imagem da Duse. Mas a imagem de beleza ainda permanece como se no ato banal de descer a escada para o trabalho da manhã, ela ainda estivesse me acompanhado, como Beatriz piedosa, até o inferno destas misérias de todo o dia.

rubem-braga
As crônicas aqui reproduzidas podem veicular representações negativas e estereótipos da época em que foram escritas. Acreditamos, no entanto, na importância de publicá-las: por retratarem o comportamento e os costumes de outro tempo, contribuem para o relevante debate em torno de inclusão social e diversidade.
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