Periódico
Correio da Manhã

Seção "Imagens da crônica".

 

Carlos Drummond de Andrade © Graña Drummond

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Ouça a crônica de Carlos Drummond de Andrade na voz do escritor Guilherme Tauil.

Rabat, 12 de janeiro: 50 borboletas amarelas esvoaçam em torno do embaixador Rubem Braga, que precisamente nessa data, em 1913, nascia em Cachoeiro do Itapemirim.

O fato de serem amarelas não as torna menos festivas. Antes de tudo, são borboletas, que já praticavam o balé antes que essa arte fosse aprendida pelos humanos, e lembram ao nosso diplomata a graça da vida.

Aliás, o Braga nem carece ser lembrado. Ele sabe. Oculto por trás do seu indiferente e às vezes antipático semblante, há um jardim de afetos e intelecções, que torna bom e simples o ato de viver. Sua estética nos conduz a observar o pé de milho, nascido contra a lei, em plena cidade. E esse pé de milho nos dá força e esperança, além de mostrar que a poesia não está só nas glicínias.

Longe mora o homem, porém muitos aqui o têm presente, na leitura fiel de seus escritos, e reclamam quando ele os faz demasiado curtos ou raros. Porque o Braga prefere seguir a borboleta azul pela rua e contá-la. Sua qualidade maior vem mesmo, em parte, daí. O que ele nos conta é o seu dia, o seu expediente de homem, apanhado no essencial, narrativa direta e econômica.

Sua novidade perene está nessa adesão ao vivo, sob aparência de sonho e alienação. É o poeta do real, do palpável, que se vai diluindo em cisma. Dá o sentimento da realidade e o remédio para ela. Qualquer um pode ser livre, desde que saiba construir sua liberdade e não a venda por nenhum preço. E a liberdade consiste, de saída, em ver e sentir por nossa própria conta.

Passou-me o Braga, há tempos, a carta de uma admiradora sua de 23 anos, que fortuitamente me citava. Começa dizendo: “Por que escolhi a madrugada para lhe escrever”? E explica: Não foi escolha, foi vontade. Padecia dessa vontade há muitos meses, quando num acesso de solidão leu suas crônicas e ficou profundamente tocada. “Lia ora num ônibus apinhado, ora num banco da Praça da República, ou em pé nas intermináveis filas paulistas; e nesses momentos me ilhava de tudo, com esse consolo, essa alegria”. E a moça pergunta ao Braga: “Não sabe que suas palavras foram terapêutica infalível? Você ao menos calcula o poder que tem”? Ela não lhe pede nada, só quer agradecer: e nem assina a carta. Se a assinasse, poderia supor-se que desejava manter um romance mais ou menos postal (menos) com o escritor famoso. Nada disso: era mesmo para agradecer “com a maior humildade na alma”. 

Todo sujeito que escreve para jornal recebe frequentemente cartas de louvação, de xingamento, de amor e outras, assinadas, com pseudônimo ou sem qualquer assinatura, e considera isso de ofício. Esta de que falei, entretanto, me chamou a atenção pela pergunta grave, e terna: “Você ao menos calcula o poder que tem”? Aí está a maior homenagem que, a meu ver, se poderia prestar a Rubem Braga, tanto mais quanto, como se sabe, esse poder não é temporal.

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