Periódico
Correio da Manhã

Seção "Imagens no Jardim".

 

Carlos Drummond de Andrade © Graña Drummond

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O cacto do poeta era “belo, áspero, intratável”. Os cactos continuam a ser belos e ásperos, mas já não são intratáveis. Tão urbanos se tornaram, que neste momento estão convidando o público geral do Rio de Janeiro a ir vê-los no Jardim Botânico, onde permanecem em exibição por cinco dias — findos os quais, voltarão à habitual cactitude.

Vamos, ide cumprimentá-los, turistas e cariocas, aos amáveis cactos do IV Centenário, tão variados e dignos. Há-os de toda espécie, a começar pelos mexicanos, que são os reis da família, sem menosprezo dos nacionais, considerados príncipes na hierarquia. Cactos do Arizona e da Venezuela, do Peru e do Equador, grandes e pequenos, que esta forma espinhenta de vida tanto pode assumir 15 metros de altura como se minimizar em um pires de café, dentro do mais estrito apartamento de Copacabana.

De longa data amo os cactos e admiro a decência que lhes é específica. Há plantas sem vergonha, que pegam à toa, sem qualquer esforço ou carinho do homem, e nos entram janela a dentro querendo puxar conversa; uma urticária tem mesmo esse nome, é “sem-vergonha” de batismo, e as trepadeiras de modo geral o são, no mimetismo que as aproxima dos carreiristas políticos. Um cacto, da espécie serpentina, se quer subir, firma-se em seus espinhos e lá vai pela vidraça da estufa acima, apoiado em si mesmo, sem espeque nem pistolão. E principalmente não precisa de água, mãe dos viventes. Chega a evitá-la, receando os seus ácidos, donde alguém ter dito que o cacto é o tipo do anacoreta: para fugir à tentação da água, instala-se no deserto. Assim é o nosso mandacaru, que não quer saber da Sudene para nada, e ao mísero sub-homem da caatinga dá fruta e remédio.

“Come”, diz o cacto ao boi, oferecendo-lhe a polpa úmida de certas variedades; e à cochonilha diz: “Pasta”, de sorte que o carmim é fabricação do cacto, por intermédio da cochonilha, se não mente a minha ciência de almanaque. Mas não vou celebrar o cacto porque ele ajuda a viver, ao jeito de um número infinito de vegetais; nem porque ajude a sonhar, com seus alcaloides em potência, a colorida série de visões contidas na mescalina. Por que precisamos justificar nosso amor, apontando virtudes no objeto amado, se amar é ato completo e justificado em si, e amar os cactos não é diferente de qualquer outro amor, tanto mais legítimo quanto menos posto em balança onde se pesem valores reputados neste mundo? Sendo que o cacto é belo, e pela beleza merecia ser amado, mas independentemente de sua beleza é que cumpre amar o próprio belo.

Um dia escreverei o romance dos cactos, à maneira do romance dos animais ditos selvagens, em que tanta doçura se esconde, com medo dos animais ditos civilizados. Sem enredo e com áspera, espinhenta linguagem. Até lá, vamos ao Jardim Botânico, cumprindo um pelo menos dever de cortesia.

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