O calendário, na mesa, marca o aniversário do meu irmão. E o curto algarismo preto no mês de fevereiro me suscita uma rajada de saudades velhas, afastando qualquer ideia de outro trabalho, me deixando parada a remoer o passado, devagar e com ternura. Transfere-me para aquela dimensão secreta que só de raro em raro se frequenta. Tesouro que a gente sabe que possui, mas que não se gasta, e se tem para garantia de sobrevivência, assim como as reservas-ouro do erário público.
E dedico-me a pensar em amor de irmão, coisa tão realmente especial. Parece uma tolice fazer com tanta ênfase essa afirmação do óbvio. Afinal quem não sabe o que é amor de irmão? É, a gente sabe mas não medita. Dá por seguro, não mede nem compara e, nesse descuido, vai perdendo de vista os valores essenciais. Meditando é que se reconhece e se agradece a Deus.
Pode a gente estar velha e caduca – mas o amor de irmão conserva o seu perfume de infância através dos anos e anos. Aquela confiança que só menino tem, aquela segurança de afeto, a crença na perfeição e na lealdade do ser amado. Mormente irmãos com pouca diferença de idade, criados na mesma ninhada, juntos e solidários. Em nada se compara amor de irmã com amores de amantes, que em si já são afetos diversos e tormentosos, são amores que consomem e desesperam. Amor de irmão não tem altos nem baixos, é planície serena, verde pradaria que, se não ostenta orquídeas de paixão, se enfeita sempre, com duráveis sempre-vivas. Amor de irmão não duvida nem desconfia, é amor dificilmente vulnerável, uma vez que jamais se desloca para a área perigosa dos outros amores. Nada lhe pode suscitar rivais, porque ele é único. Você pode arranjar 20 noivos, dez maridos, cem amantes, mas irmão só tem aquele ou aqueles nascidos em tempo hábil da carne de mãe e pai.
Enquanto você tem irmão, tem você uma reserva de intacta meninice. Pois, de um para o outro, vocês até a morte continuam a ser “os meninos”. O entendimento por meias palavras. As anedotas familiares que só os dois compreendem. No meio de um discurso o orador diz uma palavra e, através da mesa você e seu irmão trocam um sorriso – sabe lá, sabem só vocês, que longínquas, graciosas memórias aquela palavra desenterrou. Ah, irmão. Nestes tão longos anos de vida, jamais consegui ter dele a raiva mais mortífera que durasse além de dez minutos. Dez minutos? Exagero. Entre a palavra que vai e a palavra que vem se liquida tudo. Ou no auge da raiva um dito engraçado, uma alusão subentendida. Não sei como foi com Caim e Abel. Esaú e Jacó, esses irmãos homens. A relação que entendo é de irmão para irmã. Que não pode incluir rivalidade, porque os dois não evoluem no mesmo campo. Ao contrário, sendo mulher e homem, em lugar de se chocarem, se completam. Um é forte, a outra é paciente. Ele é valente, ela é astuta. O amor-amor dele vai para mulher, o dela vai para homem. As vitórias que um quer não são as mesmas que a outra pretende, porque ambições de homem não têm nada que ver com as complexas, sutis e envolvidas ambições de mulher.
Esse irmão, meu irmão, recordo-o dos anos mais longe – e vejo o bem-querer que lhe tenho, sempre igual e sempre firme, e pasmo que na natureza humana tão variável e desleal possa haver amor assim. Nunca precisei dizer a ele. E isso é que é o mais importante. Eu sei e ele sabe. A gente não precisa afirmar, repetir. Os dois sabem, tranquilamente, sem faísca de dúvida. Conta-se com ele tão certo como o dia e a noite, a velhice e a morte. Amor que não precisa de carta, de telefonema nem retratos. Pois como uma coisa imperecível poderia depender dos perecíveis?
Outro dia uma prima velha nos contou um episódio da meninice minha e dele, meu irmão. Faz muito tempo, era em Fortaleza, eu teria cinco anos e brincava de tarde, na calçada, na praça Coração de Jesus. A prima me agarrou, me beijou, me olhou de perto, e disse com a sua costumeira indiscrição:
— Ah, que pena, você não se parece nada com a sua linda mãe!
E eu teria respondido gravemente e com orgulho:
— Não, quem parece com ela é o meu irmão. Ele é que é o bonito.
Até hoje tem sido sempre assim. O bonito é ele; cada vez mais bonito, o danado, com aquele cabelo branco nas têmporas, o sorriso claro, a cor fina da pele. E aquela inteligência aguda, a malícia no entender, a ironia pronta, o ceticismo sorridente. A ternura encabulada.
Quando o velho Miguel Francisco fez há mais de cem anos a casa do Junco, parece que se estava esperando por ele. Aliás que seria daquele nosso mundo sem ele? Que seria de mim sem ele? Outra coisa seria: mais pobre, mais amarga. Sem toda aquela riqueza que vem desde a infância – infância minha e tua, meu irmão.