Imagens do tempo
E vieram as coisas humildes e ofereceram-se ao inventário: a bola de gude, o botão, o pente, a agulha, a forma de empadinha. Todas custavam dez cruzeiros, ou menos, cada uma: sendo que a agulha, num requinte de humildade, custava três. Era às dez horas da manhã, na rua do Ouvidor. O repórter ia perguntando o que custava apenas dez cruzeiros, e esses e outros artigos, sem nenhum constrangimento, foram saindo de gavetas e caixinhas, e se apresentando.
Apareceu, gordo, um charuto. O colchete de pressão verberou-lhe impostura: Como pode um objeto de tamanha empáfia custar somente dez cruzeiros, ou, como diz o outro, um “coelho”? Mas o charuto, sem agastar-se, corrigiu: “Perdão, custo cinco. Pertenço à família dos mata-ratos, também conhecida como quebra-queixo. Esta é a minha tarifa justa, e deixa-te de fofocas, irmão.”
Meto-me na pele do repórter e fico assuntando essas coisas honradas, tão alheias à conjuntura econômica, puras como os seres mais puros que habitam o paraíso. Querida broinha de erva-doce, que me sorris da vitrina da confeitaria, estarei sonhando? É exato que não amo a enjoativa erva-doce, mas tu, broinha, me apareces como criatura particularmente simpática: matas a fome a qualquer um, a troco de cinco cruzeiros. Aqui está a violeta, no jardim das mercadorias modestas, ao lado da discretíssima agulha e o dedal de plástico, de três inconcebíveis cruzeiros. Os dois acodem à costureira desesperada dos antigos folhetins, fazem baixar o preço de vestidos e cuecas: não haverá dedos inativos ou sangrando por falta de agulha sueca ou de dedal de prata, se a dona da mão recordar-se de vós, ó prestantes e amáveis instrumentos, pairando qual arco-íris sobre o pesadelo inflacionário.
Comprarei imediatamente essas utilidades todas, inclusive a folha de etiqueta para escolares, de sete cruzeiros, embora já não alise banco de escola, e a ficha de galalite, de oito cruzeiros, reservada ao pôquer, que jamais praticarei. Levarei para casa até o extraordinário limpador de chapéus de palha, que o repórter chama de relíquia do Rio antigo. Quero-as todas, a essas coisas de dez e menos cruzeiros, não para um pequeno museu doméstico, se não porque as amo e venero em sua integridade, em sua doçura imóvel, em sua determinação de eternidade. Sim, são ou procuram ser eternas. Não quiseram subir além de dez cruzeiros. A inflação talvez não seja mais do que um empuxo no sentido de integrar o homem na era espacial, libertando-o da condição meramente terrestre. Arrastado nesse perpetuum mobile, daqui a pouco o ser humano será foguete ou bólide. Mas, para recordar-lhe antigas graças e bondades da vida, temos aqui este alfinete de fralda “de luxo”, esta pedra de isqueiro, a pedrinha de víspora, o pacote de grampos marca Lucy para sua patroa, o pé de moleque, a porção de doce de abóbora, as gratas cordas para violão, cavaquinho e bandolim, oh, mesmo para nós que nada sabemos tocar, mas tão cheias de música, tão amigas! O mundo de nada além de dez cruzeiros contempla-nos com amor.